Uma Breve Evidência da Sabedoria do Imam al-Jawad – o nono Imam
Al-Hassan b. Muhammad b. Sulaiman narrou na autoridade de Ali b. Ibrahim b. Hashim, na autoridade do seu pai, na autoridade de al-Rayyan b. Shabib, que disse:
Quando al-Mamun quis casar sua filha, Umm al-Fadl, com Abu Jafar Muhammad b. Ali (al-Jawad), que a paz esteja com eles, os Abássidas tomaram conhecimento disso, ficando perplexos e extremamente preocupados. Eles temiam que a questão (do Califado) acabaria terminando com ele como havia acontecido com al-Rida, que a paz esteja com ele. Eles estavam bastante preocupados com a questão. Al-Mamun se encontrou com os membros mais próximos da sua família e estes lhe disseram: “Chefe do crente, nós vos imploramos ante Deus para que não persevereis neste plano que vós decidistes, de casar o filho de al-Rida (com vossa filha). Visto que nós tememos que vós tomareis o poder que Deus tornou nossa propriedade e nos despojará daquilo com que Deus nos adornou. Vós sabeis o que há entre nós e essa gente, tanto no passado como no presente, bem como a política dos califas bem-guiados antes de vós de isolá-los e depreciá-los. Nós estávamos (bastante) preocupados com a sua atitude em relação a al-Rida até que Deus nos foi suficiente nessa questão. Ó Deus, não nos traga de volta aquela dor da qual nós acabamos de escapar. Desistas da vossa opinião sobre o filho de al-Rida e voltai-vos para alguém que vós considerais apropriado dentre vossa própria família, com a exclusão de qualquer outro”.
Al-Mamun respondeu: “Vós próprios sois a causa de (qualquer atrito) que há entre vós e a família de Abu Talib. Se vós tratásseis essa gente com justiça, eles seriam muito mais achegados a vós. Quanto àquilo que aqueles antes de mim fizeram com eles, trata-se de um ato contra o parentesco e eu busco a proteção de Deus contra isso. Por Deus, eu não me arrependo do acordo de sucessão que eu fiz com al-Rida. Eu lhe pedi que ele se encarregasse da questão e eu estava disposto a abrir mão daquilo, mas ele se recusou. A decisão de Deus foi um decreto que já foi decretado. Quanto a Abu Jafar (al-Jawad), eu o escolhi em função da sua superioridade sobre todos os homens de méritos intelectuais, a despeito da sua pouca idade, e como resultado da sua natureza miraculosa envolvida nisso. Eu espero que ele mostre às pessoas aquilo que eu sei que nele há e, então, elas entenderão porque eu mantenho essa posição em relação a ele”.
“Este jovem, ainda que vos tenha surpreendido, precisa de direção”, eles lhe disseram. “Ele ainda é um menino, sem conhecimento e discernimento. Assim, pois, ajas com prudência com relação a ele, de modo que ele se torne educado e obtenha conhecimento na religião. Então, depois disso, fazeis o que achardes apropriado”.
“Que vergonha!”, ele replicou. “Eu conheço o status desse jovem (em comparação a) vós. Ele é da família da Casa cujo conhecimento provém de Deus, daqueles que O amam e são inspirados por Ele. Seus ancestrais sempre foram ricos no conhecimento da religião e da literatura, muito além do povo, o qual carece do alcance da perfeição (deles). Se vós desejardes, avalies Abu Jafar (al-Jawad) para que ele torne evidente para vós o seu status que eu acabei de descrever”.
“Nós concordamos em avaliá-lo, Chefe do crente, tanto em vosso benefício como para nós mesmos”, eles responderam. “Nesse caso, permitas que nós designemos alguém para questioná-lo, na sua presença, sobre um assunto de jurisprudência. Se ele responder corretamente, então não haverá nenhuma oposição da nossa parte e isso demonstrará, tanto para a elite como para o povo, a visão acurada do Chefe do crente. Por outro lado, se ele não for capaz disso, nós teremos tido êxito em prover proteção num assunto sério com relação a essa idéia”.
“Isso é um assunto vosso e que (acontecerá) a qualquer hora que vós desejardes”, al-Mamun lhes disse.
Eles partiram e concordaram em recorrer a Yahia b. Aktham. Ele era, até então, o Qadi al-Qudaat (o Chefe dos Juízes) da época, o qual seria capaz de formular perguntas que (Abu Jafar al-Jawad) não teria condições de responder. Eles lhe prometeram grandes somas para fazer isso. Eles voltaram a al-Mamun e pediram que ele escolhesse um dia para o encontro. Ele atendeu o pedido deles. Eles se reuniram na data marcada e junto com eles estava Yahia Aktham. Al-Mamun ordenou que um assento de honra fosse preparado para Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele, e que almofadas de couro fossem colocadas em cima do assento. Isso foi feito. Abu Jafar (al-Jawad) se apresentou. Naquela época, ele contava nove anos e alguns meses. Ele se sentou entre as almofadas de couro e Yahia b. Aktham sentou-se de frente para ele. O povo ficou no seu respectivo lugar, enquanto al-Mamun sentou-se num assento de honra junto ao assento de Abu Jafar, que a paz esteja com ele.
“Chefe do crente, vós me concedes permissão para questionar Abu Jafar?”, Yahia b. Aktham perguntou a al-Mamun.
“Busqueis a permissão dele para isso”, al-Mamun respondeu.
Então, Yahia b. Aktham se dirigiu a ele e disse: “Que eu seja o vosso resgate, vós permites que eu (vos) questione?”.
“Perguntes se vós desejais”, lhe disse Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele.
“Que Deus faça de mim o vosso resgate”, disse Yahia, “o que vós dirias de um muhrim (uma pessoa num estado de purificação ritual para a peregrinação) que matou um animal enquanto caçava?”.
“Por acaso, ele matou o animal na área não-santificada ou no santuário?”, perguntou Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele. “O muhrim fez isso conscientemente ou por ignorância, deliberadamente ou involuntariamente? O muhrim era escravo ou livre, jovem ou velho, inexperiente em caça ou experiente? O animal caçado era alado ou não, pequeno ou grande? O homem era obstinado em sua ação ou arrependido? A morte do animal caçado ocorreu à noite ou de dia? Ele estava no estado de consagração ritual para a peregrinação pequena (umra) ou para a peregrinação maior (hajj) quando ele cometeu o delito?”.
Yahia b. Aktham estava perplexo. Indecisão e inaptidão ficaram evidentes em seu rosto. Ele começou a balbuciar de modo que todos na assembléia perceberam que ele estava em apuros.
“Glória a Deus pela essa benção e pelo acerto do meu juízo”, disse al-Mamun. Então, ele virou para os membros da sua família e disse: “Vós reconheceis agora aquilo que costumáveis negar?”.
Ele foi até Abu Jafar, que a paz esteja com ele, e lhe perguntou: “Vós discursareis para nós, Abu Jafar?”.
“Sim, Chefe do crente”, ele respondeu.
“Que eu seja o vosso resgate”, al-Mamun disse “discurseis para nós como vós desejardes e (sabeis) que, da minha parte, eu estou satisfeito convosco. Eu vos casarei com Umm al-Fadl, minha filha, apesar da objeção dessas pessoas”.
Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele, disse: “Glória a Deus. Não há divindade além de Deus, Único em sua Unicidade. Que as benções estejam sobre Muhammad, o mestre das Suas criaturas, e sobre os purificados da sua família. Entre os favores de Deus para com suas criaturas está o fato de Ele ter lhes enriquecido com o permitido à parte do proibido”. Então, ele citou: “Casai os solteiros, e os virtuosos dentre os vossos escravos e escravas. Se eles forem pobres, Deus os enriquecerá com a Sua benção. Deus é Abrangente, Sapientíssimo” (24: 32). Assim é que Muhammad b. Ali b. Musa se tornará noivo de Umm al-Fadl, a filha do servo de Deus, al-Mamun. Ele concedeu como dote para ela o (mesmo) dote da sua (distante) avó, Fátima, filha de Muhammad, o qual consiste em cinqüenta bons dirhams. Vós a casareis com ele com base neste dote que foi mencionado, Chefe do crente?”.
“Sim”, respondeu al-Mamun. “Eu vos casarei, Abu Jafar (al-Jawad), com Umm al-Fadl, minha filha, pelo dote que foi mencionado. Vós aceitais o casamento?”.
“Eu aceito e consinto nisso”, respondeu Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele.
Al-Mamun ordenou que as pessoas sentassem no lugar reservado aos cortesões e a população em geral.
[al-Rayyan narrou:]
Logo depois disso, nós ouvimos vozes semelhantes ao som dos marinheiros em suas cantorias. De súbito, (apareceram) escravos trazendo um navio de prata amarrado a cordas de seda em carroças impregnadas de perfume. Al-Mamun mandou que aquele perfume fosse passado nas barbas dos cortesões. Depois, o perfume foi passado para o povo em geral e eles se perfumaram com ele. Mesas foram dispostas e as pessoas comeram. Presentes foram concedidos a todas as pessoas de acordo com as suas respectivas posições. Quando as pessoas partiram e apenas alguns cortesões permaneceram, al-Mamun disse a Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele: “Que eu seja o vosso resgate, será que vós podeis nos dizer a lei (fiqh) concernente aos aspectos nos quais vós dividistes a morte dum animal por um muhrim, de modo que nós aprendamos e nos beneficiemos com isso?”.
“Sim”, respondeu Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele. “Se ele matou o animal fora dos limites da área sagrada, sendo o animal alado e grande, (uma expiação de) um carneiro seria necessário. Se ele tivesse perpetrado o ato no santuário, a pena requerida dele teria que ter sido dobrada. Se ele matou um pássaro jovem fora dos limites da área sagrada, então (a expiação de) um cordeiro que houvesse desmamado teria sido exigido dele. Se ele o tivesse matado no santuário, teria que ser requerido dele o (sacrifício de) um cordeiro e o valor de um pássaro jovem. Quanto aos animais selvagens, se fosse um burro selvagem, ele teria (que sacrificar) uma vaca. Se fosse uma avestruz, o sacrifício de um camelo seria necessário. Se fosse um antílope, um carneiro teria sido necessário. Se ele tivesse matado qualquer um desses (animais) no santuário, a pena teria sido um sacrifício dobrado oferecido na Caaba. Se o muhrim tivesse abatido qualquer coisa que exigisse um sacrifício a ser feito e seu estado de consagração ritual fosse para a peregrinação maior (hajj), ele teria que fazer o sacrifício em Mina. Se o seu estado de consagração ritual fosse para a peregrinação menor, ele teria que fazer o sacrifício em Meca. As penas previstas para a caça por alguém que sabe (que isso é proibido) e por alguém que é ignorante (disso) são as mesmas. Se ele fez isso deliberadamente, cometeu um pecado. Ele é absolvido disso (do pecado) se o ato ocorreu sem querer. O homem livre é responsável pelo pagamento da sua expiação, ao passo que o senhor é responsável pelo pagamento de expiação do seu escravo. Não há nenhuma expiação necessária para uma criança, mas para um adulto sim. Todo aquele que se arrepende da sua ação escapará da punição da Outra Vida por meio do seu arrependimento e todo aquele que for obstinado terá que sofrer punição na Outra Vida”.
“Bravo, Abu Jafar (al-Jawad); Deus vos adornou”, al-Mamun lhe disse. “Agora vós consideraríeis conveniente questionar Yahia assim como ele vos questionou?”.
“Posso vos questionar?”, Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele, perguntou a Yahia.
“Que eu seja vosso sacrifício”, ele respondeu, “isso é vós que deveis decidir, mas se souberdes a resposta daquilo que me perguntares, então eu obterei o benefício do vosso conhecimento”.
Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele, disse: “Dize-me a respeito de um homem que olha para uma mulher no começo do dia, sendo que o seu olhar dirigido a ela lhe era ilícito. Ainda assim, com o passar da manhã, ela se lhe tornou lícita. Ao meio-dia, ela se tornou ilícita a ele, mas à tarde, ela se lhe tornou lícita. Ao pôr do sol, ela lhe era ilícita, mas quando anoiteceu, ela se tornou lícita. No meio da noite, ela lhe era ilícita, mas na alvorada, ela se tornou lícita a ele. Qual era o estado dessa mulher e por que ela era ou lícita ou ilícita a ele em períodos diferentes do dia?”.
“Deus não me guiou à resposta dessa pergunta e eu desconheço como chegar a ela”, Yahia b. Aktham lhe disse. “Vós consideraríeis apropriado nos beneficiar com a resposta?”.
“A mulher é uma cativa de um homem dentre as pessoas”, disse Abu Jafar (al-Jawad), que a paz esteja com ele. “Um estrangeiro olhou para ela no começo do dia e aqui o olhar dirigido a ela lhe era ilícito. Com o passar do dia, ele a comprou junto ao seu proprietário e ela se tornou lícita a ele. Ao meio-dia, ele lha concedeu liberdade e, então, ela se tornou ilícita a ele. À tarde, ele se casou com ela e, então, ela se lhe tornou lícita. Ao pôr do sol, ele se separou dela de acordo com a fórmula censurada (zihar) – Vós sois para mim como o corpo da minha mãe – e, então, ela se tornou ilícita para ele. À noite, ele fez a expiação para o (zihar) e ela se tornou permitida a ele. No meio da noite, ele se divorciou dela com o primeiro divórcio e ela se lhe tornou ilícita. Na alvorada, ele renunciou o divórcio e ela se lhe tornou permitida”.
Nisso, al-Mamun se dirigiu aos membros da sua família que estavam presentes e lhes disse: “Há alguém dentre vós que possa responder perguntas da forma como essa resposta (foi emitida) ou discorrer sobre a resposta que acabou de ser dada?”.
“Não, por Deus”, eles responderam. “Decerto o Chefe do crente sabe melhor (do que ninguém) acerca das decisões que toma”.
“Que vergonha!”, ele lhe disse. “Essa Casa foi distinguida dentre as criaturas pelo elevado mérito que vós haveis presenciado. Mesmo a pouca idade não os impede de atingir a perfeição do (intelecto). Não percebestes que o Apóstolo de Deus, que Deus o abençoe e a sua família, começou a sua missão convocando o Comandante dos Crentes, Ali b. Abu Talib, a segui-lo quando ele era apenas um menino de dez anos de idade? E este último aceitou o Islam dele e julgou suas (ações) com base nisso? Ele não convocou ninguém mais da sua idade (para aceitar o Islam). (Novamente) al-Hassan e al-Hussain, que a paz esteja com eles, deram o voto de fidelidade quando eles eram meninos de menos de seis anos de idade. Ele não exigiu o voto de fidelidade de nenhuma outra criança além desses dois. Vós não percebestes agora a maneira singular com que Deus distinguiu essa gente? Eles são descendentes que seguem um ao outro de maneira que o último deles executa aquilo que o primeiro executou”.
“É verdade, Chefe do crente”, eles responderam e então as pessoas se dispersaram.