Ensinamentos do Islm
 

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A Paz e o Movimento Islâmico

O Movimento deve ser Pacífico

O lema do Islam é: paz. Quando um muçulmano se encontra com outro irmão ele diz para este: “al-Salam Alaikum” (que a paz esteja convosco) e este responde para aquele: “Alaikum al-Salam” (convosco esteja a paz). Do mesmo modo que ele inicia o seu encontro com um cumprimento de paz ele termina com um cumprimento de paz de despedida, dizendo ao se despedir: “Que a paz esteja convosco”. O Islam, portanto é a religião da paz, motivo pelo qual Allah, Exaltado seja, diz no Alcorão Sagrado: “Entrem num estado de paz totalmente” (2: 208).

Guerras, bloqueios e outras manifestações de violência constituem tão-somente medidas emergenciais e não a norma e vão, ademais, contra os mais básicos princípios islâmicos. A sua natureza é daquela de extrema necessidade como no caso da alimentação de “carne ilícita” ou casos semelhantes a esse, não obstante isso, o princípio básico é aquele da paz. Apesar disso, porém, Allah diz: “A quem vos agredir rechaçai-o da mesma forma” (2:194) e em outra ocasião Ele diz: “Mas perdoar está mais próximo da piedade” (2:273).

A senda do Profeta (S), de Fátima (A) e dos Imams infalíveis (A) era assim. A paz era o lema deles em todas as circunstâncias até mesmo durante as suas batalhas e o sucesso ímpar do Profeta do Islam (S) e dos Imams (A) se deve à paz com a qual eles se adornaram em todos os aspectos das suas vidas.

Assim, nós vemos que os Abássidas, Umíadas e Otomanos procederam de uma forma que só lhe renderam má reputação, ao passo que os verdadeiros líderes do Islam não possuem senão uma boa reputação e são conhecidos pelas pessoas pela a sua paz, ternura e clemência:

Nós governamos e clemência era a nossa natureza, quando vós governastes o sangue fluía como um rio.

Suficiente para nós é a diferença entre nós, pois cada vaso mostrará a substância que ele contém.

A paz promovida pelo Islam foi uma das razões do seu progresso inicial, bem como foi responsável pela a sua segunda era de progresso depois dos ataques das Cruzadas do Ocidente e dos Mongóis do Oriente. E por meio da paz nós esperamos obter o progresso do Islam neste século que tem sido repleto de ataques às suas terras tanto da parte do Ocidente quanto do Oriente.

O Mensageiro de Allah, Muhammad (S), progrediu, como já foi dito, por meio da paz que ele adotou como um lema. Um exemplo disso é Meca55, a capital da incredulidade e da idolatria e a capital das declarações de guerras contra o Mensageiro de Allah por todos os meios imagináveis. Eles o baniram, mataram a sua filha Zainab, confiscaram os seus bens e assassinaram vários dos seus discípulos. Eles ainda tentaram assassiná-lo, obrigando-o a emigrar secretamente para Medina, mas, ainda assim, eles continuaram os seus conluios contra a sua missão sagrada. Apesar disso, decorridos mais de vinte anos, quando o Mensageiro de Allah conquistou Meca, ele executou essa conquista pacificamente, sem derramar uma gota de sangue sequer. Um dos preparativos que ele tomou, quando da conquista de Khaibar, foi que ele tomou como espólio uma grande quantidade de vasos de ouro de diferentes tamanhos e que contabilizavam vinte mil em número. O Mensageiro (S) reservou uma certa quantidade desses vasos para serem distribuídos entre os menos afortunados de Meca, a despeito do fato de eles serem incrédulos, politeístas e hostis ao Mensageiro de Allah (S). Quando esses vasos foram entregues aos cidadãos de Meca, eles ficaram estupefatos e confusos e disseram: “Nós lutamos contra esse homem, nós confiscamos a sua propriedade, nós assassinamos os seus seguidores e os seus parentes, e ele nos trata de uma maneira tão afável como essa”.

E isso foi uma oferta do Mensageiro de Allah (S) para consolidar o Islam em Meca e destruir os ídolos e para estabelecer a paz entre as pessoas. Quando o Mensageiro de Allah (S) conquistou Meca, Abu Sufian, seu arquiinimigo, veio e o Mensageiro de Allah (S) o perdoou. E não apenas isso como também ele fez da casa dele um santuário dizendo: “Aquele que entrar na casa de Abu Sufian estará seguro”. Então, ele virou para a esposa de Abu Sufian, Hind, a mulher famosa pelos seus atos imorais e ataques ao Mensageiro de Allah (S). Ela que abriu o abdômen do Mestre dos Mártires, Hamza, amputou o seu nariz e as suas orelhas e o mutilou da maneira mais vil, retirando o seu fígado e mastigando-o na boca. Essa mulher, essa “criminosa de guerra” recebeu do Mensageiro de Allah um documento de perdão. Assim, o Mensageiro de Allah (S) instituiu o mais grandioso exemplo de perdão na história da humanidade. O Mensageiro de Allah (S) aceitou o Islam de Hind com a condição de que ela não se prostituísse, o que aponta para o fato de que ela era uma famigerada prostituta antes do advento do Islam. O nobre versículo corânico que o Mensageiro de Allah (S) recitou para Hind também aponta para esse fato, quando Allah diz:

“Quando as crentes se apresentarem a ti, jurando-te fidelidade, afirmando-te que não atribuirão parceiros a Allah, não roubarão, não cometerão adultério...” (60:12).

Similarmente, o Mensageiro de Allah (S) perdoou o povo de Meca e proferiu as palavras históricas: “Ide, pois vós estais em liberdade”. Ele não reclamou a sua casa ou as casas dos seus companheiros que haviam sido confiscadas pelos politeístas. E quando ele tomou a chave da Caaba do seu custódio, o seguinte versículo corânico foi revelado: “Deus vos ordena devolver todas as coisas depositadas em confiança aos seus legítimos donos” (4:58), como algumas exegeses nos dizem, e, depois de ter destruído os ídolos, ele retornou a chave para o custódio.

O Mensageiro de Allah (S) também abriu caminho para trazer Khalid (ibn al-Walid) à luz da religião, dizendo para o seu irmão, Walid ibn al-Walid: “Eu estou impressionado com o seu irmão Khalid, ele é um homem talentoso. Por que ele não entrou para o Islam? E por que ele não proferiu os dois testemunhos de fé (shahadatain)?” Quando Walid se encontrou com o seu irmão Khalid e lhe transmitiu as palavras do Mensageiro de Allah (S) a seu respeito, Khalid ficou impressionado com o fato de o Mensageiro de Allah (S) tentar conquistá-lo com tanta cordialidade, uma vez que ele estava travando uma guerra total contra ele (S). Isso se tornou um motivo para Khalid aceitar o Islam e se juntar ao exército muçulmano como muito bem documentado nas crônicas.

Através desses meios pacíficos, o Mensageiro de Allah (S) conquistou um lugar no coração do povo de Meca antes de ganhar o domínio sobre os seus corpos. E quando ele ganhou o domínio sobre os seus corpos, eles lhe obedeceram, seguiram o seu exemplo e diziam acerca dele: “Ele é um nobre irmão e o filho de um nobre irmão”.

Os cronistas relatam que Meca, a essa época, era a capital da incredulidade e do politeísmo, da hipocrisia e da carnificina, do egoísmo e da arrogância. Quando ela se submeteu ao Mensageiro de Allah (S), muitas pessoas não anunciaram a sua aceitação do Islam, mas permaneceram na senda do politeísmo. O Mensageiro de Allah (S) jamais os coagiu a aceitar o Islam, mas, ao invés disso, os deixou em paz para que eles pudessem viver por si próprios sob o governo do Islam e entrar no Islam no futuro.

O Mensageiro de Allah (S) nomeou um homem chamado Atab como governador de Meca. Ele era um jovem muçulmano de bastante fé que contava cerca de 20 anos de idade. Ele fixou a quantia de quase dois talentos de prata por dia como salário para ele.

Os cronistas mencionaram que Meca não testemunhou nenhuma guerra após isso e se submeteu ao governo de Atab sem a necessidade de qualquer exército, força de segurança ou qualquer outro poder. Isso porque o Mensageiro de Allah (S) conquistou as suas mentes e os seus corações, e quando isso acontece a pessoa não é capaz de se rebelar ou resistir. Assim, o povo de Meca começou a sentir a correção da senda islâmica e que, dentro dela, eles continuariam tendo a sua autoridade e liderança, a sua honra e os seus bens permaneceriam em suas próprias mãos e os seus objetos sagrados continuariam sendo sagrados.

Saad ibn Ubada tomou o estandarte durante os primeiros momentos da conquista de Meca. Então, ele começou a percorrer as ruas de Meca proclamando: “Hoje é o dia do abate, hoje as mulheres serão capturadas”. Quando o Mensageiro de Allah (S) ouviu isso, ele disse para o Imam Ali ibn Abu Talib (A): “Ó Ali, tomai o estandarte de Saad e proclamai o oposto”. Então, o Imam Ali tomou o estandarte das mãos de Saad e começou a proclamar pelas ruas e vielas de Meca: “Hoje é o dia da misericórdia, hoje a honra das mulheres será preservada”. Isto é, hoje nós viemos para vós em misericórdia e para unir vossas fileiras e para construir uma irmandade entre vós, e hoje as vossas mulheres permanecerão com a sua honra e dignidade intactas. Essas ações do Mensageiro de Allah (S) foram a causa principal da absoluta submissão da cidade sagrada de Meca ao Mensageiro de Allah (S).

Guerra, acusações, calúnias, difamação, insinuações, inimizades, ódio, vaidade, orgulho, fraude e coisas semelhantes constituem a causa do declínio das nações e dos indivíduos. Por outro lado, o ser humano é escravo das virtudes. O Imam Amir al-Muminin (A) disse: “Eu fico admirado com aquele que compra o escravo com a sua riqueza. Por que ele não compra o homem livre com as suas virtudes?”.

Em todo o caso, é imperativo que o movimento islâmico que tenciona estabelecer um Estado islâmico mundial adote a paz como o seu lema, diretriz e plano de ensino, de modo a atrair a mais vasta audiência. Através disso, a assistência e o auxílio de Deus serão alcançados.

As Nobres Conseqüências da Paz

Aqueles envolvidos no movimento islâmico devem ser caracterizados pela paz nos seus pensamentos, nos seus discursos e nas suas relações tanto com o amigo como com o inimigo, pois as conseqüências da paz são mais nobres e isso agiliza a consecução do objetivo colimado. Paz e “fazer a paz” são princípios que resultam no progresso dos seus proponentes, ao passo que aquele que não faz a paz ou a pessoa violenta sempre ficará para trás.

O maior de todos os profetas disse ao Imam Ali (A): “Ó Ali, as nobres virtudes deste mundo e do outro são: brandura no falar, magnanimidade e perdoar aquele que errou convosco”.

Aqui não se trata de perdão ao transgressor injusto que não se arrepende, mas o perdão quando no poder. O poeta expressou essas palavras do Mensageiro do Islam em forma de versos, dizendo:

As maiores virtudes estão resumidas em três: brandura no falar, magnanimidade e tanto perdão quanto possível.

Isto é, quando alguém estiver numa posição de poder, ele deve perdoar e ser brando no falar e não ser violento, pois se ele o for, ele acabará sendo evitado pelas pessoas.

Em outro hadith em louvor ao crente é dito que os crentes são “humildes”, querendo dizer que eles são humildes e não tão desagradável a ponto de as pessoas temerem estar ao lado deles ou ao seu redor, pois a pessoa violenta e desagradável é, via de regra, evitada pelos outros.

O movimento (islâmico) que deseja unir as pessoas e guiá-las à senda reta deve adotar moderação, pois as pessoas se reunirão em torno daquele que é humilde, brando, agradável e amistoso como é descrito no hadith acerca das qualidades do crente: “O crente é humilde, brando, agradável e amistoso. O júbilo está em sua face e a tristeza em seu coração”. Assim é que a pessoa que tenciona atrair os outros deve ser. Se o lema do movimento for a violência, ele perderá toda a credibilidade aos olhos do povo e este chegará a pensar que assim como o movimento é violento com os seus inimigos, ele também se tornará, inevitavelmente, violento com eles algum dia. O poeta diz:

Tenhas paciência diante de um invejoso, pois a vossa paciência o aniquilará,

Assim como o fogo se extinguirá se ele não encontrar algo com o que alimentar-se.

Esse é o fato. A pessoa violenta age violentamente com o amigo, com o inimigo e com o estranho, ao passo que a pessoa branda age brandamente tanto com amigos como com inimigos. Com efeito, vários hadiths recomendam a brandura, gentileza, compaixão e amor. É relatado do Profeta Jesus (A) num belo discurso atribuído a ele: “Vós tens sido ensinados a amar vossos amigos, mais isso não é o que importa, pois até mesmo os coletores de dízimos amam os seus amigos. Eu vos digo para amar os vossos inimigos”. Fica claro nas palavras de Jesus que isso não resulta em benefício do inimigo tanto quanto resulta em benefício da própria pessoa, pois a pessoa que ama o seu inimigo procurará estabelecer boas relações e uma conexão com ele, o que poderá fazer cessar a inimizade do inimigo.

Há um hadith do Mensageiro de Allah (S) que diz: “Dai presentes uns aos outros, estabeleceis amor entre vós”, querendo dizer que o ato de dar presentes uns aos outros faz com que um amor mútuo seja estabelecido entre as pessoas. Existem vários outros hadiths no mesmo sentido relatados do Profeta e dos Imams (que a paz esteja com eles).

O movimento islâmico, com efeito, deve se caracterizar pela paz e deverá fazer dela o seu lema, de modo que as pessoas desenvolvam confiança nele. Qualquer movimento que levar a cabo um ou dois atos violentos será considerado culpado pelas pessoas por qualquer outro ato violento subseqüente que apareça na sociedade, assim como o ladrão que rouba uma vez será considerado culpado por outros roubos que ocorrerem. No provérbio é dito: “A mente associa uma coisa ao mais geral e usual”. Se o movimento se tornar alvo de suspeição das pessoas, associando-o à violência, então elas abandonarão tal movimento e este não conseguirá atingir o seu objetivo.

Assim como o movimento islâmico deve criar condições para o surgimento de conscientização, organização e observar os princípios gerais, ele deve se embasar nos quatro seguintes pilares: paz e pacificação, brandura, compaixão e ternura. O hadith e tradições do Mensageiro de Allah (S), a sua história, as suas batalhas e as suas campanhas militares, todas deixam claro quão brando e pacífico ele era, bem como os excelentes resultados que ele obteve.

Nós vemos, por exemplo, como o Mensageiro de Allah (S), depois de ter conquistado Meca, lidou com os cidadãos daquela cidade de uma maneira tão tenra e doce que ele foi capaz de obter duas coisas:

A primeira foi que ele conseguiu obter um empréstimo junto a Safwan ibn Ummaiah, um dos maiores politeístas, de quatrocentos jogos de armaduras. Durante a Época da Ignorância, Safwan havia ocupado a posição de ministro de guerra dos politeístas, além de ter suprido, com vários jogos de armaduras, os combatentes nas guerras que se desencadeavam entre as tribos e os clãs. Quando o Mensageiro de Allah (S) solicitou a Safwan que ele lhe emprestasse as armaduras, ele não hesitou em dá-las ao profeta, pois ele havia testemunhado a sua ternura e experimentado paz durante a conquista de Meca.

A segunda coisa foi que o Profeta (S) conseguiu formar um exército de dois mil homens que estaria junto a ele na batalha de Hunein que foi deflagrada imediatamente após a conquista de Meca. Trinta mil guerreiros da tribo de Humazin e de outras tribos haviam se reunido no vale de Hunein, próximo a Meca, para atacar o Mensageiro e assassinar a ele e os seus companheiros. O Profeta contava com dez mil Mujahidin de Medina e dois mil homens de Meca, totalizando doze mil combatentes, guerreiros, cavaleiros e homens com armadura. Dessa forma, o Mensageiro foi capaz de combater o povo de Hunein nesta lamentável guerra mencionada no Alcorão Sagrado.

O Mensageiro de Allah (S), junto com os seus companheiros de Medina e com aqueles que se juntaram a ele de Meca, conseguiu derrotar o exército inimigo e obter uma vitória para o Islam e isso pôs fim à resistência dos incrédulos ao longo de toda a Península Arábica. Isso aconteceu por força das virtudes do Profeta e do seu pacifismo, da sua compaixão, ternura, generosidade, veracidade e fidedignidade.

Após o término da batalha de Hunein, ele retornou as armaduras a Safwan. Os muçulmanos tomaram posse nesta batalha de uma grande monta de espólios e as crônicas relatam que Safwan fitou os camelos que haviam sido conquistados pelo Mensageiro de Allah (S). O Mensageiro percebeu isso e disse: “Vós desejais esses camelos, ó Safwan”. Ele disse: “Sim, ó Mensageiro de Allah”. Então, o Mensageiro disse: “Dai dez camelos para Safwan”. Nisso, eles lhe deram dez camelos. Então, ele disse: “E mais dez”. E ele continuou a lhe dar mais camelos até chegar a quantidade de cem camelos.

Na verdade, essa doação era, de fato, para o povo de Meca como um todo, haja vista que Safwan fazia parte de uma importante família e tinha vários parentes e naqueles tempos quando o chefe obtinha alguma coisa isso significava que os seus seguidores e a sua família iriam obter uma porção daquela coisa também.

Desse modo, o Mensageiro de Allah (S) foi capaz de atrair a atenção dos politeístas em Meca e eles começaram a entrar para o Islam e a testificar os dois testemunhos de fé sem o uso de violência ou de guerra e sem derramamento de sangue, mas tão-somente por amor ao Islam, pois no Islam eles viram um refúgio, um abrigo, liderança, amizade, riqueza, fraternidade e uma diminuição dos seus problemas. Portanto, o movimento islâmico deve aprender com o Mensageiro de Allah (S) como agir e fazer a paz.

Paz... sempre

Continuando a discussão do tratamento pacífico do amigo e do inimigo, o qual é um dos princípios fundamentais sobre o qual deve se basear os esforços do movimento islâmico internacional, a paz inicialmente é difícil e penosa. Ela requer autocontrole, indulgência, a faculdade de fechar os olhos para certas coisas e a capacidade de agir decisivamente da melhor maneira possível.

Deus, Imponente e Majestoso, disse no Alcorão Sagrado:

“Repele o mal da melhor forma possível e eis que aquele que nutria inimizade por ti converter-se-á em íntimo amigo. Porém a ninguém se concederá isso, senão aos tolerantes, e a ninguém se concederá isso, senão aos bem-aventurados” (41: 34-35).

A pessoa deve sempre ter em mente o objetivo a se alcançar e perceber que a vingança inibe a consecução daquele objetivo. Assim, nós vemos que os Profetas, Imams e reformadores sempre se inclinaram à paz não apenas antes de chegarem ao poder, mas depois também.

Uma tradição bastante conhecida relata que o Mensageiro de Allah (S) estava deveras furioso com Wahshi, o assassino de Hawza (A), que era um dos heróis do Islam, assim como o eram Ali e Jafar, os filhos de Abu Talib. Eles eram os leais auxiliadores do Mensageiro de Allah (S) e seus assistentes durante as suas guerras e campanhas militares, além de ocuparem uma posição de orgulho e honra entre os muçulmanos. Por causa disso, Hind, a mulher de Abu Sufian disse a al-Wahshi: “Se vós matardes Muhammad ou Ali ou Hamza, eu vos recompensarei com isso e mais isso e vos libertarei da vossa escravidão”. Abu Wahshi respondeu: “Quanto a Muhammad, eu não poderei assassiná-lo porque ele está cercado pelos seus companheiros. Quanto a Ali, eu não tenho nenhuma chance contra ele, pois quando ele entra no campo de batalha, ele é tão auto-consciente que nada escapa à sua vista, nem pela frente, pela direita, pela esquerda ou por detrás dele. Mas eu posso conseguir assassinar Hamza, pois quando ele entra no campo de batalha, ele não é tão auto-consciente. Então, ele entrou no campo de batalha, procurou uma oportunidade para atacá-lo e o atacou. Assim, Hamza foi assassinado da forma mais abjeta. Por causa disso, o Mensageiro de Allah (S) ficou bastante furioso com Wahshi. Tempos depois, porém, um dos seus companheiros veio até ele e disse: “Ó Mensageiro de Allah (S) vós perdoareis Wahshi, pois ele aspira ao Islam?”. O Mensageiro de Allah (S) disse: “Nesse caso, eu o perdôo”. E, de fato, o Mensageiro de Allah (S) o perdoou e então ele entrou para o Islam e se tornou um ótimo muçulmano. Ele (Wahshi) costumava dizer depois disso: “Eu devo auxiliar o Islam da mesma forma como eu costumava auxiliar a incredulidade contra o Islam”. Wahshi participou e desempenhou um importante papel em batalhas posteriores. Ele participou na história de al-Iamamah e serviu ao Islam do mesmo modo que ele servia aos incrédulos contra o Islam.

Portanto, nós podemos ver as excelentes conseqüências suscitadas pelo perdão do Mensageiro de Allah e da sua aceitação do Islam de Wahshi.

Da mesma maneira, o Mensageiro de Allah também perdoou Habbar, um dos mais rudes indivíduos de Meca e aquele que havia causado grandes aflições e tribulações aos muçulmanos. Ele causou a morte de Zainab, a filha do Mensageiro de Allah (S) que era uma mulher piedosa e que lembrava o Mensageiro de Allah em suas virtudes e à sua mãe Khadija em sua aparência. Ela estava grávida quando Habbar causou a sua queda da sela e o conseqüente aborto da criança. Ela permaneceu doente por causa disso até a sua morte. O Mensageiro de Allah (S) ficou magoado com isso e clamou pelo sangue de Habbar e quando ele conquistou Meca, Habbar fugiu para as montanhas, pois o Profeta havia dito: “Mateis Habbar mesmo que ele esteja se agarrando às cortinas da Caaba”. Isso porque ele era considerado uma pessoa rude e de más maneiras que causava aflições e tribulações como nós já dissemos anteriormente.

Então, um homem veio até o Mensageiro de Allah (S) e disse: “Ó Mensageiro de Allah, vós perdoastes todo mundo; perdoai Habbar também. Vós sois o mais nobre e o mais indulgente”. E o Profeta disse: “Eu o perdôo”.

A história registra a ternura do Mensageiro de Allah (S), sua paciência e sua resolução. Essas nobres qualidades merecem serem registradas como milagres. Quão grande um homem deve ser para alcançar o estado em que perdoa o assassino do seu tio Hamza e o assassino da sua filha e do seu futuro neto: Zainab e seu filho.

Foi por isso que o Islam começou a se difundir, porque a ética do Islam se fez brilhar, causando uma boa impressão nas pessoas. Esse é o Islam no qual a pessoa deve crer, o Islam, em torno de cujo estandarte ele é capaz de agrupar (as pessoas) em total benevolência e paz.

O movimento internacional islâmico deve se adornar com a mesma tinta de perdão, paz, pacifismo e pacificação. E isso não apenas com amigos e parentes, mas também com estranhos e inimigos, como nós constatamos na história dos grandes reformadores. Um determinado comandante muçulmano assumiu o controle de um determinado território após uma guerra civil e um motim. Um grupo de oficiais que eram tidos como criminosos de guerra foram capturados e sentenciados à morte por execução. Quando aquele chefe, aquele homem paciente, honesto, tenro e inteligente, pegou a sentença de morte, ele a jogou ao chão e disse: “Ter aqueles oficiais em terra vivos é melhor que tê-los debaixo da terra mortos. Eu lhes concedo indulgência, soltai-os, pois”. Aqueles que haviam levado a sentença de morte ficaram impressionados com aquilo, mas eles não podiam desobedecer a ordens e, conseqüentemente, eles tiveram que libertar os oficiais. Posteriormente, aqueles oficiais se tornaram os seguidores mais fiéis ao Islam. Eles serviram a sua pátria em outra guerra depois daquela como expiação pelos seus atos vis do passado. O comandante disse: “Percebestes quão efetivo a ternura, a paciência, o perdão e a paz podem ser. Se nós tivéssemos autorizado a morte daqueles oficiais, quem teria liderado o exército? Quem teria derrotado o nosso inimigo quando ele nos atacou?”.

Com efeito, é imperativo que o lema do movimento islâmico seja “paz” nos ditos, nos atos e nos escritos e paz em todas as circunstâncias e com todas as pessoas.

Paz: A Senda dos Profetas e dos Imams

Desde que o princípio da paz é um princípio estratégico e muito importante, nós devemos discuti-lo em mais detalhes, sendo ele a base da luta para o estabelecimento de um governo para milhões de muçulmanos na Terra. É essencial que aqueles envolvidos no movimento islâmico internacional observem meios pacíficos, visto que a paz atrai as pessoas e então põe fim à obduração do inimigo. Daí o dito do Amir al-Muminin (A): “Eu odiaria que vós vos tornardes amaldiçoadores”. Antes dele, o Alcorão Sagrado já havia dito: “Não ofendeis o que invocam, em vez de Allah, porque eles, em sua ignorância, ofenderão iniquamente a Allah” (6:108).

Imprecação e hostilidade causam aversão entre os amigos e fortalece o inimigo e não há nenhuma razão para isso. Imprecação arbitrária não traz nenhum resultado e aquilo que a pessoa deve estar ciente quando diante do seu inimigo é que ela deve procurar repeli-lo da melhor forma possível, como nos é dito no Alcorão Sagrado:

“Repele o mal da melhor forma possível, e eis que aquele que nutria inimizade por ti converter-se-á em íntimo amigo. Porém a ninguém se concederá isso, senão aos tolerantes, e a ninguém se concederá isso, senão aos bem-aventurados” (41: 34-35)

Portanto, aqueles envolvidos com o movimento devem adotar a paz nos seus pensamentos, nos seus ditos, nos seus escritos e nas suas confrontações e, mesmo quando eles organizarem protestos e greves, eles devem ser caracterizados pela tranqüilidade, pois o que é importante é alcançar o objetivo pretendido e não uma manifestação de ódio e repugnância, pois o ódio só gera ódio e repugnância só gera repugnância. No famigerado aforismo: “As uvas não são colhidas de espinhos”. Tudo gera frutos da sua própria natureza e boas maneiras numa pessoa geram boas maneiras na outra pessoa. Más maneiras só podem gerar uma reação negativa. Isso se aplica tanto à paz quanto a seus simultâneos; cada um deles gera o seu par.

Isso requer um certo grau de autocontrole e de “coração aberto” como o Imam Ali (A) disse: “A chave da liderança é coração aberto”. Querendo dizer que o seu coração deve permanecer aberto em todos os aspectos – ética, social e intelectualmente, bem como nos seus esforços, pois essa é a chave da liderança e quanto mais isso ocorrer, mais as pessoas se sentirão atraídas ao movimento e mais próximo ele estará do objetivo colimado.

Assim, nós podemos constatar que o fenômeno das virtudes morais (perdão, paz, paciência, não retaliar da mesma maneira, mas responder da melhor forma possível) aparece na vida de todos os Profetas de Allah, dos Imams infalíveis (A) e dos grandes reformadores. Nós vemos que na guerra de Basra (a batalha de Jamal), que foi a primeira guerra a ser declarada contra o Imam Ali, após o fim do conflito, o Imam se inclinou à paz e enviou um mensageiro a Aicha1 dizendo que ela deveria retornar para a sua casa em Medina em paz. O Imam também vestiu quarenta mulheres com roupas de homens e as enviou junto com Aicha para levá-la a Medina com a sua honra intacta. Elas se vestiram com roupas masculinas para que, caso alguma caravana passasse por elas, ela pensaria que elas eram homens e não as atacariam. Tendo em vista também que Aicha era a esposa do Profeta (S), o Amir al-Muminin tinha aversão à idéia de enviá-la junto com homens e preferiu a opção de enviá-la junto com mulheres. E, de fato, Aicha foi de Basra a Medina na companhia dessas mulheres. Isso é, sem dúvida alguma, um dos maiores exemplos de retidão moral.

Nós podemos ver também que o Imam Ali perdoou aqueles que haviam incitado a guerra contra ele ainda que dentre eles houvessem pessoas que se encaixavam no perfil de criminosos de guerra na terminologia moderna como, por exemplo, Marwan e Ibn Zubair, os quais foram perdoados por ele. Ele também perdoou o exército inimigo dizendo: “Eu concedo ao povo de Basra aquilo que o Mensageiro de Allah concedeu ao povo de Meca”. E ele concedeu-lhes liberdade, não se vingou deles, não retornou o mal com o mal, mas com perdão e ternura e ordenou que todos os pertences que haviam sido tomados como espólios do exército inimigo fossem retornados a eles. Tudo foi retornado, até mesmo uma panela que havia sido tomada e estava sendo utilizada para cozinhar uma sopa foi esvaziada e entregue de volta. Certa vez, o Imam empreendeu uma missão de reconhecimento a um casarão. Foi lhe dito que as mulheres haviam se reunido ali e estavam chorando pelos soldados mortos do exército derrotado e que também estavam amaldiçoando o Imam e o seu exército. O Imam adentrou a casa que era bastante espaçosa e estava lotada de mulheres do exército derrotado. O Imam disse aos seus companheiros: “Não encostei nelas, mesmo que elas ataquem a vossa honra e hombridade”. Então, eles contiveram as suas mãos e reagiram às imprecações delas com ternura. Quando elas viram o Imam, elas começaram a bradar: “Este é o assassino dos nossos amados!”. O Imam gesticulou e disse: “Se eu fosse o assassino dos vossos amados, eu teria assassinado aqueles que estão nessas salas (apontando para as salas)”. De súbito, as mulheres fizeram silêncio e não disseram uma palavra a mais. As pessoas ficaram espantadas com aquilo e ficaram se perguntando o que o Imam havia dito que silenciou as mulheres. Posteriormente, a questão foi desvendada para os companheiros do Imam: os líderes do exército inimigo haviam se escondido naquelas salas e as mulheres haviam se reunido ali com o fito de acobertá-los e distrair a atenção dos soldados para longe deles. Com efeito, quando o Imam Ali disse “se eu fosse o assassino dos seus amados, eu teria assassinado aqueles que estão nessas salas”, elas ficaram em silêncio.

A vida do Profeta, do Imam Ali (A), dos outros Imams, dos grandes profetas, dos grandes reformadores e das grandes mentes é resumida na palavra “paz”.

Portanto, o movimento islâmico internacional deve observar a paz em todos aspectos antes, durante e depois da ação e na ocasião da vitória e do estabelecimento do Estado Islâmico, com a anuência de Deus, Imponente e Majestoso, Os líderes também devem educar os membros do movimento acerca da paz no dito, no pensar, na escrita e na ação custe o que custar.

A Paz Salvaguarda o Islam

Allah diz no Alcorão: “Ó crentes, entrem num estado de paz totalmente” (2: 208).

A paz, portanto, é o princípio geral, ao passo que a violência é a exceção. Nos capítulos anteriores, nós mencionamos o tratamento pacífico do Mensageiro de Allah (S) para com os seus amigos e inimigos, parentes e estranhos, bem como aquele do Imam Ali (A). O Mensageiro de Allah (S) e o Imam Ali (A) são modelos para nós, assim como o são os profetas e infalíveis restantes. Portanto, nós devemos seguir o exemplo deles, independentemente, se nós estivermos no início do governo ou se já tivermos alcançado o governo pela graça de Allah.

Alguém poderá objetar: “Apesar de o Mensageiro de Allah ser infalível e (apesar dele) não dever ter os seus atos questionados, a nossa tarefa não é igual a dele. Nós vemos que o ato dele ter poupado vários hipócritas lhe causou inúmeros problemas mais tarde. Se ele tivesse matado Abu Sufian e Muawia no dia da conquista de Meca, o Estado Umíada que arrasou o Islam completamente não teria sido formado e não teria causado inúmeros problemas aos seus descendentes. Portanto, nós devemos adotar outro caminho e quanto a conduta deles, eles sabiam o que estavam fazendo”. Esse raciocínio deve ser refutado. Primeiro porque o Profeta e o Imam são modelos, e o modelo deve ser seguido independente de nós compreendermos ou não a sabedoria por trás das suas ações.

O versículo corânico diz: “Jamais enviaríamos um mensageiro que não devesse ser obedecido, com a permissão de Allah” (4:64).

Outro versículo diz: “Aceitai, pois, o que vos der o Mensageiro, e abstende-vos de tudo quanto ele vos proíba” (59:7).

E em outro é dito: “Por teu Senhor, não crerão, até que te tomem por juiz de tuas dissensões e não objetem ao que tu tenhas sentenciado e aceitam-no espontaneamente” (4:65).

Isso do ponto de vista da fé e da Lei Divina. Do ponto de vista do intelecto, nós cremos que se o Mensageiro de Allah (S) tivesse assassinado Abu Sufian dentre outros, não teria havido apoio ao Islam e nem ele teria deitado raízes e florescido, porque os politeístas teriam enterrado o Islam ainda no berço. Abu Sufian não estava sozinho. Na Península Arábica havia milhares de Abu Sufians e cada um deles possuía família, amigos, parentes e clã. Eles teriam enterrado o Islam ainda no berço e hoje em dia nós não teríamos ouvido nenhuma palavra do Mensageiro de Allah (S), do mesmo modo que nós não ouvimos a respeito de muitos outros profetas de Allah que foram assassinados. O versículo corânico diz: “Por que, então, assassinastes os profetas de Allah, se éreis crentes?” (2:91) e isso demonstra que vários profetas foram assassinados.

O Mensageiro de Allah (S), Muhammad, estava diante da opção de ignorar os hipócritas, os quais, caso causassem alguns problemas, seriam destruídos pelo tempo no final das contas, assim como o tempo destruiu o clã Umíada e o consignou às névoas da história, ou da outra opção de desembainhar a sua espada e matar, matar e matar até as tribos se amotinarem e assassinar a ele e aos seus fiéis companheiros, sem deixar nenhum traço do Islam para trás.

O mesmo se aplica ao Imam Ali (A). Se ele desembainhasse a sua espada e assassinasse os seus inimigos e enfrentasse a reação da tribo, dos parentes e dos amigos deles num ataque conjunto contra ele, auxiliados pelos romanos e, através disso, eliminar o Imam Ali (A), isso significaria a eliminação do próprio Islam e a sua transformação numa religião corrompida como o Judaísmo e o Cristianismo, da forma como é mencionado no versículo corânico: “E eles mudaram as palavras das suas corretas posições” (5:13).

Não teria sido melhor ignorar aquelas pessoas que, caso conseguissem denegrir o Islam, só o conseguiriam por um curto período de tempo?

Esse, de fato, foi o plano do Mensageiro de Allah e do Imam Ali, um plano deveras sábio, aliás. Assim, um dos companheiros do Imam o descreveu como sendo: “Perspicaz e dotado de poderosas faculdades”. Hoje nós constatamos o Imam Ali, depois de cerca de 1400 anos desde o seu martírio, tendo mais de um bilhão de pessoas crendo nele, muçulmanos ou não, ao passo que os Umíadas e os Abássidas foram consignados às névoas do tempo e só são mencionados com desdém. Por conseguinte, o Mensageiro de Allah permanece e aqueles que se opuseram a ele como Abu Jahl, Abu Sufian e Abu Lahab pereceram. Um dos benéficos da paz é que a memória do pacificador permanece, assim como as suas leis e métodos, ao passo que a memória do indivíduo beligerante/belicoso não permanece, mesmo que se assuma que ele estava 100% correto. Daí o dito do Mensageiro de Allah (S): “Toda a vez que o Anjo Gabriel descia ante mim, ele me ordenava a manter boas relações com as pessoas”.

Na história contemporânea, nós vemos que Stalin, Hitler e Mussolini e seus semelhantes se inclinaram à violência, assim como o fizeram Iasin al-Hashimi no Iraque, Pahlevi no Irã e Ataturk na Turquia e muitos outros além deles, e todos eles se foram. Stalin foi exumado e seu corpo incendiado e todos os princípios Stalinistas destruídos. Quanto a Hitler, até pouco tempo atrás, o seu país estava dividido entre russos e americanos. O país de Mussolini se tornou um caos e as “Brigadas Vermelhas” estavam disseminadas, assim como os assassinatos e saques por mais de quarenta anos. O primeiro Pahlevi foi expelido e assassinado na Mauritânia, Iasin al-Hashani foi expulso do Iraque e morto e Ataturk também o foi.

Além do fato dessas pessoas terem se tornados os amaldiçoados da história, elas sumiram assim como os seus princípios. A história só reputa esses indivíduos agora como uma lição a ser aprendida, assim como o Faraó, Chidad e Nimrad se tornaram lições e também Muawia, Iazid, al-Hajjaj, Ibn Ziad e Harun. Aqueles que vierem depois deles devem aprender com eles a não se inclinar à ditadura e à violência, mas sim ao discernimento e a paz, bem como conferir liberdades e olhar para as pessoas com olhos de amizade e irmandade, mesmo em se tratando de infiéis. Assim como disse o Imam Ali (A): “As pessoas são de dois tipos: vosso irmão na religião ou vosso igual na criação”.

Allah, Exaltado seja, fala no Alcorão sobre os crentes e os descrentes como sendo irmãos, quando Ele diz: “E ao povo de Ad Nós enviamos seu irmão Saléh” (6:65). Saleh foi um mensageiro e profeta cuja tribo, Ad, era composta de infiéis, mas mesmo assim Allah o descreve como irmãos deles.

O ponto importante para as pessoas envolvidas no movimento islâmico é o de estarem cientes dessa realidade da irmandade, permanecerem pacientes e prestarem atenção às nações que já se foram “Dize: Percorrei a terra...” (16:69, 29:20, 30:42), “Percorrei-a, pois, por todos os seus quadrantes e desfrutai das suas mercês...” (67:15). O indivíduo deve contemplar e refletir sobre as nações passadas e sobre o estado das nações modernas.

Aqueles que se inclinam à paz permanecem populares na sua própria terra e nas outras, ao passo que aqueles que tendem à violência, à força e à grosseria, caso sejam conhecidos, são desdenhados e repudiados.

Allah diz sobre o Seu Profeta: “Pela misericórdia de Allah, foste gentil para com eles; porém, tivesses tu sido insociável ou de coração insensível, eles se teriam afastado de ti ” (3:159).

Se nós adotarmos a paz como um princípio prático sempre, nós estaremos aptos, se Deus quiser, a iniciar um movimento geral rumo a um autêntico movimento islâmico, o qual será um prelúdio para salvar as terras islâmicas dos colonialistas e ditadores e para estabelecer a lei de Allah para um bilhão de muçulmanos, pois para Allah isso não é nada difícil.

A Paz entre os Membros do Movimento

Nós temos discutido o princípio da paz a partir de vários pontos de vista incluindo a interação social pacífica e a interação pacífica com o inimigo. Agora nós vamos discutir o mesmo ponto de vista, mas a partir de um outro ângulo, a saber, a interação pacífica entre os próprios membros do movimento islâmico. Isso significa que os membros do movimento devem estar em completa concórdia e não deve haver qualquer tipo de divergência ou disputa entre eles. Freqüentemente, ocorre entre os membros de uma organização competições não salutares, disputas, contendas e rixas mútuas. Esse problema tem duas raízes:

A primeira é que algumas pessoas procuram explorar as outras e a segunda é que aquelas pessoas de status mais elevado olham para os membros de status menos elevado com desdém, ao passo que estes olham para aqueles como exploradores e oportunistas. O Islam oferece a solução para ambos os problemas:

O método de processo de decisão deve ser o de consulta mútua (Shura), de modo que cada qual tenha a oportunidade de manifestar a sua opinião. Assim, a exploração que resulta em dissolução e morte do movimento será evitada. Quanto àquele que diz: “Eu tenho um maior discernimento” ou “a minha visão do futuro é mais acurada, por isso eu tenho o direito de decidir a questão”, isso é exatamente o que nós chamamos de exploração. Isso resolverá o primeiro problema.

Quanto ao segundo problema, as pessoas não devem alimentar sentimentos de desprezo pelos outros ou depreciarem-se mutuamente. “Ó crentes, evitai a suspeita, porque algumas suspeitas é crime” (49:12).

Suspeições devem ser evitadas. O Imam Amir al-Muminin (A) disse: “Dai ao vosso irmão o benefício da dúvida” e em outra tradição do Imam Sadiq (A), este disse: “Se cinqüenta pessoas jurarem para ti que ele disse alguma coisa e ele diz que não disse, então crede nele e não crede neles”. Isto é, não suspeite dele baseado naquilo que aqueles traidores disseram.

Um dos Imams infalíveis visitou um dos Califas numa situação emergencial. O Califa disse ao Imam: “Ó filho do Mensageiro de Allah (S), aconselhe-me”. O Imam (A) disse: “Os muçulmanos ou são mais velhos que vós, caso em que vós deveis tratá-los como vós tratais o vosso pai. Ou eles são mais jovens que vós, caso em que vós deveis tratá-los como vós tratais o vosso filho. Ou (ainda) eles são iguais a vós em idade, caso em que vós deveis tratá-los como vós tratais o vosso irmão. Honrei o vosso pai, tratai o vosso irmão igualmente e tenhais misericórdia pelos vossos filhos”. Esse é o modo que o indivíduo deve olhar para qualquer outra pessoa; com ternura e misericórdia, simpatia e compaixão, pois do contrário ele não será capaz de progredir, independente de quão poderoso ele seja. Essas foram as bases sobre as quais o Mensageiro de Allah construiu o Estado islâmico e sobre as quais os Imams infalíveis moldaram a personalidade dos crentes muçulmanos.

É relatado que o Imam Sadiq (A) foi a Karbalá para visitar o túmulo do Imam Hussain (A) e disse a um dos seus companheiros: “Dê uma volta e convidai qualquer pessoa que encontrardes para visitar o Imam Hussain”. O homem foi, mas não retornou com ninguém. O Imam disse para ele: “Por que vós retornastes sozinho?”. O homem disse: “Ó filho do Mensageiro de Allah, eu achei que as pessoas que eu encontrei não eram boas o suficiente”. O Imam disse para ele: “Então, eu acho de vós o mesmo que vós achastes deles”. Isto é, se há uma diferença de nível entre as pessoas então a diferença entre vós e eles é a mesma que a diferença entre vós e eu. E assim como não é correto que uma pessoa de status mais elevado rejeite uma de status mediano, também não é correto que a pessoa de status mediano rejeite outra pessoa de status menor.

Da mesma forma, deve haver um estado de paz e harmonia entre os membros do movimento islâmico e não um estado de exploração, antipatia e desdém.

O movimento islâmico não conseguirá guiar as pessoas à senda reta enquanto ele próprio não seguir a senda reta. Existe um famoso princípio da razão que diz: “Aquilo que carece de uma determinada coisa não pode conceder aquela coisa”. Se você não possui conhecimento como você poderá transmitir conhecimento? Se você não tiver um Dinar como você poderá gastar um Dinar? Similarmente, se os princípios fundamentais do movimento islâmico não for a igualdade, justiça, humildade e o amor das pessoas, ele não será capaz de incutir esses princípios nas outras pessoas. Isso é simplesmente impossível.

Os membros do movimento islâmico devem, por conseguinte, olhar para os outros com igualdade, fraternidade e justiça a fim de que ele possa progredir com a anuência de Allah. Pois se assim não for, as pessoas irão dizer: “Se houvesse alguma virtude no movimento deles, eles próprios teriam adotado aquilo que eles estão pregando para as pessoas”.

Muitos movimentos islâmicos fracassaram no passado por força do malogro em adotar as virtudes da ação e da paz. Esses movimentos fracassados devem constituir uma lição para nós, de sorte que nós possamos atuar de um modo que tornará o movimento reto e, por esse meio, alcançar, com a graça de Allah, o Estado islâmico internacional de mais de um bilhão de muçulmanos.

Os Resultados da Paz

A paz resulta na melhor conseqüência. Aqueles que fazem a paz permanecem, não obstante quantos inimigos eles tenham. Mesmo quando eles tropeçam e caem, isso é apenas temporário. Se os membros do movimento islâmico se adornarem com um ar de paz, eles irão, primeiramente, deter os seus inimigos e estes não serão capazes de destruí-los e, em segundo lugar, se os seus inimigos conseguirem capturá-los isso será apenas transitório e, no final das contas, acabará resultando no progresso dos pacificadores.

Nós podemos ver que os Profetas e os Imams sempre se inclinaram à paz. O Mensageiro de Allah (S) costumava fazer a paz com os seus inimigos, mesmo quando ele estava no auge do seu poder, e suas guerras foram todas elas defensivas, como comprovado pela história. O Mensageiro de Allah (S) não iniciou uma única guerra e quando ele participava em batalhas, estas eram caracterizadas pela paz tanto quanto possível. Por causa disso, o Mensageiro de Allah conseguiu obter grandes progressos e continua a fazê-lo até os dias atuais. Nem um dia se passa sem que o número de muçulmanos aumente, a despeito de tudo que o Estado islâmico teve que enfrentar em termos de conluios e estratagemas desde o seu primeiro dia de existência até hoje.

O Imam Ali (A) também se inclinou à paz com o maior afinco. Ele não declarou guerra contra o povo de Jamal; eles que declararam guerra contra ele e tão logo a guerra terminou, ele lidou com os sobreviventes como se eles fossem amigos e irmãos e como se nada houvesse acontecido. O mesmo aconteceu na batalha de Nahrawan, na qual os Kharijites declararam guerra contra o Imam, disseminaram falsos rumores e insultaram o Imam até que ele proferiu um belíssimo discurso (presente em Nahj al-Balagha) dirigido aos seus companheiros. Um Kharijite ouviu o discurso e disse acerca dele: “Allah amaldiçoe por sua infidelidade, quão sábio ele é”. Querendo dizer que o Imam Ali era infiel, mas que era sábio também. Os seus companheiros queriam punir os Kharijite, mas o Imam disse: “Deixai-o, pois a regra consiste em uma maldição para uma maldição ou perdão de um pecado e eu prefiro perdoar”. Isto é, ‘ele me amaldiçoou e, portanto, eu tenho o direito de amaldiçoá-lo também ou de perdoar e eu sou mais digno da segunda opção' e, por conseguinte, ele o perdoou. De fato, o Imam Ali (A) conseguiu ganhar o controle sobre o movimento Kharijite, que era um movimento corrupto, com a sua serenidade e flexibilidade.

As crônicas mostram que quando a guerra com os Kharijites terminou, o Imam (A) perdoou os sobreviventes e não os aprisionou ou os puniu de nenhuma maneira. Eles estavam em Kufa e outros locais denegrindo o Imam (A), porém ele permaneceu em silencio, pois ele sabia que no final das contas é o pacificador que sempre progride. Os Kharijites estavam deixando as coisas difíceis para o Imam através de vários meios como comparecendo à mesquita, mas não orando a oração em congregação junto com ele. Certa vez, um Kharijite leu o seguinte versículo corânico diante do Imam: “Já te foi revelado, assim como aos teus antepassados: Se idolatrares, certamente tornar-se-á sem efeito a tua obra” (39:65). Insinuando, assim, que o Imam era um Mushrik (aquele que associa parceiros a Allah) e que suas ações eram em vão. Ainda assim o Imam o perdoou. Essa era a natureza do Imam: paciente em face das críticas, mesmo que críticas opressivas, e paciente em face da pressão, mesmo que a pressão viesse da parte de pessoas corruptas, pois ele sabia que a paz gera as mais nobres conseqüências e que o pacificador sobrevive ao tempo como nós podemos comprovar que ele próprio sobreviveu por 1400 anos e continuará a sobreviver até o fim dos tempos independente de qualquer coisa.

Na batalha de Siffin, uma das mais violentas batalhas contra o Imam (A), as crônicas relatam que quando o Imam derrotava um soldado do exército de Muawia, ele lhe pedia que ele jurasse não mais apoiar Muawia contra ele e então o deixava fazer o que ele quisesse. Isso é inaudito na história, exceto na dos Imams, dos Profetas e dos grandes reformadores que seguiram o caminho deles.

Por causa disso, nós vemos que o Imam permaneceu como uma imponente montanha, apesar do fato de o clã Umíada ter imposto pressão sobre ele e de tê-lo amaldiçoado a partir de setenta mil púlpitos por cerca de cem anos, e a despeito do fato de o clã Abássida tê-lo oprimido, incluindo o Califa Mutawakkil, o qual declarou guerra contra ele, assassinou e aprisionou os seus filhos, profanou o túmulo de Hussein (A) e destruiu Karbalá duas vezes, como relatado nas crônicas. Um indivíduo chamado Ubadah al-Mukhnath costumava freqüentar reuniões e colocar um travesseiro entre a sua barriga e a sua camisa e passear pelo salão dizendo: “Eu sou Amir al-Muminin”. Escarnecendo o Imam Ali, enquanto todos presentes caíam na gargalhada.

Mas qual era a conseqüência disso? Aquelas pessoas só feriam a elas próprias e não ao Imam, senão superficialmente. O Imam disse certa vez: “Eu nunca fui gentil para com ninguém e ninguém jamais me prejudicou”. Aqueles ao seu redor disseram: “Ó Comandante dos Crentes, tu fostes gentil para com muitos e muitos te causaram prejuízo”. Ele disse: “Não ouvistes as palavras de Allah: ‘Se fizerdes o bem, farei isso a ti próprio e se fizerdes o mal, farei isso contra ti próprio' (17:7), portanto quando eu fiz o bem para os outros eu só fiz o bem para mim próprio e quando as pessoas fizeram mal para mim, elas só fizeram mal para si próprias”.

De fato, aqueles que impuseram pressão sobre o Imam (A) dos clãs Umíada e Abássida, bem como os seus lacaios só causaram danos a si próprios. Mutawakkil foi assassinado junto com o seu vizir al-Fath ibn al-Khaqan, assim como aqueles que vieram antes e depois dele. O Imam permaneceu como uma grandiosa montanha ou como um sol radiante que ilumina mais de um bilhão de pessoas na terra.

Tudo isso foi devido à natureza do movimento do Imam (A) e o seu pacifismo que ele adotou como um lema na sua vida pessoal, social e familiar.

O hadith relata que quando Ibn Muljim golpeou o Imam, este disse para aquele: “Eu não fui bom para contigo, eu não dei para ti generosamente?”. Não obstante, o Imam ter sido informado pelo Mensageiro de Allah (S) que Ibn Muljim lhe mataria, ele continuou lhe favorecendo e o tratando gentilmente. Depois de Ibn Muljim ter golpeado a cabeça do Imam com a sua espada, Ali continuou ordenando que ele fosse bem tratado. Quando ele bebia leite, ele deixava um resto e dizia: “Alimentai o vosso prisioneiro”. O Imam também disse aos seus filhos: “Se eu me recuperar desse golpe dele, eu o perdoarei. Se eu não me recuperar então vós tereis o direito da retaliação, mas não mutileis o homem, pois eu ouvi o Mensageiro de Allah dizer: ‘Não mutileis nem mesmo um cão raivoso'”. Ao invés disso, ele recomendou que os seus filhos perdoassem o homem.

Igualmente, Muawia se foi, os Kharijites pereceram e o povo de Jamal passou, assim como Harun, Mutawakkil, Mamun e outros como eles que se opunham ao Imam (A). Todos eles se foram e o Imam permanece como um minarete iluminando os viajantes.

O movimento islâmico que busca um renascimento com o fito de estabelecer um governo de um bilhão de muçulmanos, deve adotar a paz como o seu lema para que ele possa ser capaz de atrair as pessoas e repelir os inimigos. E se, por um acaso, o movimento islâmico tropeçar e cair, ele irá, inevitavelmente, se levantar novamente. E tendo em vista que faz parte da natureza humana apoiar os pacificadores e exigir vingança dos beligerantes, se o movimento islâmico adotar a paz como o seu lema apropriadamente e não apenas como um slogan vazio, em atos, ditos, pensamentos, escritos, discursos e nos encontros, então ele conseguirá se expandir até atingir todas as terras do Islam. Isso será o prelúdio do governo de um bilhão de muçulmanos pela graça de Allah.

O Equilíbrio no Pensar e no Agir resulta na Paz

A paz não poderá ocorrer nem poderá ser concretizada a menos que as ações e o processo de pensar do ser humano estejam em equilíbrio e longes de suposições e arbitrariedades, exageros e negligência.

Se o indivíduo vê em si próprio e no seu grupo todo bem e toda virtude e vê os outros como desprovidos de virtudes e imersos em vícios, esse tipo de pensamento só levará a coisas que não a paz, como ódio e inimizade, ataques e insinuações indiretas. É bem sabido que existem três coisas que por menores que sejam são consideradas imensas: fogo, inimizade e doença. Um simples palito de fósforo pode incendiar toda uma madeireira com dezenas de toneladas de madeira. Uma pequena doença pode levar à morte. O menor tipo de inimizade como uma palavra sórdida pode levar a uma carnificina.

As crônicas relatam que a guerra de Busus, que durou cerca de cem anos, começou quando um homem de uma certa tribo atirou uma flecha num camelo pertencente a uma outra tribo. O proprietário do camelo assassinou o homem que havia atirado a flecha, cuja família assassinou o proprietário do camelo e etc, etc, etc.

Conseqüentemente, é imperativo que o indivíduo pense de uma forma equilibrada, de modo que ações equilibradas resultem disso. Se nós pensarmos de uma maneira exagerada, então isso só resultará em ações corruptas e daí para inimizade e ódio.

Se o indivíduo desejar empreender um movimento islâmico que resulte em um governo de um bilhão de muçulmanos, então ele deve adotar a paz como o seu lema em seus atos, nos seus discursos, em seus escritos e dentro do seu movimento. O Profeta Jesus (A) aludiu a isso quando ele disse: “Se alguém vos bater na face direita, oferecei-lhe, então, a esquerda”.

Com isso, Jesus não quis dizer que o oprimido deve se submeter aos opressores, mas com isso ele quis dizer outra coisa a que o Alcorão também se refere no versículo: “... mas o perdão está mais próximo da piedade” (2:237). Jesus desejava sucesso para os seus seguidores, bem como atrair as pessoas. Conseqüentemente, ele lhes ensinou a paz nesse grau. E nisso Jesus foi muito bem sucedido e nós podemos constatar que hoje em dia mais de dois bilhões de pessoas no mundo o respeitam, metade dos quais são cristãos e a outra, muçulmanos.

Em outra pérola de sabedoria relacionada ao Messias (A), ele e um grupo de discípulos seus passaram por um grupo de judeus que disseram algumas palavras rudes para ele. Ele, porém, replicou com palavras amáveis. Naturalmente ele disse a verdade quando disse coisas boas sobre eles, haja vista que muitas pessoas más possuem pelo menos um aspecto bom dentro delas. Perguntaram-lhe: “Por que vós falastes amavelmente deles quando eles falaram rudemente de vós?”. Ele disse: “Cada pessoa dispensa aquilo que ela possui”. Isto é, quem quer que nutre o mal falará palavras vis e vice-versa. Aquele que tem um dinar dará aquele dinar, ao passo que aquele que não tem nada além de um venenoso escorpião só poderá dar um escorpião.

Esse também é o caso de quem nutre o bem ou o mal. Se as faculdades da visão, da audição, da escrita e etc. emanam de um coração cheio de benevolência e misericórdia, elas serão caracterizadas por benevolência e misericórdia. O contrário também é verdadeiro. Se o coração é cheio de maldades e mentiras, a língua e o resto das faculdades só conseguirão expressar aquilo que reside no coração. Isso é o que Jesus nos ensina: se a outra parte não é benevolente, então sejas tu pelo menos.

Na súplica para o mês de Rajab estão as palavras: “Ó Tu a Quem rogo por todo bem e a Quem procuro santuário contra o Teu descontentamento por todo mal. Ó Tu que dás muito em troca de pouco. Ó Tu que dás aquele que Te solicita e àquele não Te solicita ou não Te conhece, mercê da Tua amabilidade e misericórdia”.

Allah agracia tanto aos crentes quanto àqueles que não o conhecem ou se opõe a Ele. Ele agracia até aqueles que se opõem a Ele. O Alcorão Sagrado alude a isso no versículo: “Tanto a estes como àqueles agraciamos com as dádivas do Teu Senhor” (17:20).

Se nós quisermos adotar a ética de Allah, nós devemos ser equilibrados no agir e no pensar e não morrer de amores pelos nossos amigos e negligenciar aqueles que não o são. Tudo deve estar em equilíbrio. Dentre os benefícios do indivíduo cujos pensamentos e cujas ações são equilibradas é que as pessoas aprovarão os seus julgamentos e se juntarão às suas fileiras. Isso, porém, é algo que requer autocontrole e a faculdade de tolerar críticas, o que não é nada fácil, mas da adversidade poderá sair um bom resultado.

Um hadith do Mensageiro de Allah (S) diz que quando ele viu Fátima (A) labutando e se exaustando, ele disse: “Tolerai hoje a amargura deste mundo em troca da doçura do próximo”. Coisas amargas só produzem um resultado doce.

Qualquer engenheiro, doutor, advogado, esportista ou um escritor ou redator abençoado só conseguirá alcançar a sua posição através de trabalho duro e muita labuta. E nós devemos fazer o mesmo se nós quisermos alcançar o objetivo de um governo de um bilhão de muçulmanos.

Isso requer autocontrole, equilíbrio no pensar, capacidade de tolerar críticas e a habilidade de persuadir as pessoas sem recursos nem qualquer meio despótico ou ditatorial. Despotismo e ditadura, e extremismo no pensar, no falar, no agir e no sistema administrativo só resultará em más conseqüências.

Há um hadith que diz que certa vez Jesus (A) passou por um cadáver e disse: “Quem te matou? Haverá um dia em que eles matarão o teu assassino”. Isso é quase uma lei natural: uma pessoa que mata outra verá o dia em que ela própria será assassinada. Em outro hadith é dito: “Dizei ao assassino que ele será assassinado e ao adúltero que ele será pobre”.

Uma das condições do movimento islâmico internacional é que ele deve adotar a paz do ponto de vista do equilíbrio no pensar e no agir, bem como dar a cada coisa aquilo que ela merece. O Alcorão Sagrado diz: “... e não defraudeis as pessoas em seus pertences” (7:85, 11:85, 26:183).

Isso significa que se você escreve um livro e se gaba por causa disso, mas quando uma outra pessoa escreve dez bons livros e você não o louva pela quantidade de livros escritos por ela, então isso resultará no fato de você ir ficando para trás na vida, além do fato de as pessoas abandonarem-no e de você ficar conhecido como imodesto.

Assim, é por demais sabido entre os nossos escolásticos que uma fonte de conhecimento religioso ou um Imam de uma congregação ou um juiz deve se distanciar do ódio e do amor arbitrário.

Nós já dissemos anteriormente que, certa vez, um homem disse para o Sheik Murtada al-Ansari: “É fácil para um ser humano se tornar um escolástico, mas lhe é impossível se tornar um ser humano”. Querendo dizer que ele era um escolástico e isso era algo fácil. Porém, você não é um ser humano e isso é algo impossível de você alcançar. O Sheik replicou: “Pelo contrário, é difícil para um ser humano se tornar um escolástico e é ainda mais difícil para ele se tornar um ser humano”.

Isso é verdade, pois uma pessoa deve labutar por cinqüenta ou sessenta anos, dia e noite, para se tornar um escolástico. E se ele quiser se tornar um ser humano, o seu esforço deve ser ainda maior, caso ele queira realmente atingir o seu objetivo.

Construindo Blocos de Paz dentro do Movimento

Para se alcançar a paz dentro do movimento islâmico é necessário a presença de dois componentes sem os quais o movimento não obterá um bom resultado, mas permanecerá fraco e ineficaz, assim como muitos movimentos no passado atingiram o seu auge para depois desaparecerem, pois eles não tinham verdadeiros blocos de construção para o movimento. Isso se aplica tanto ao mundo islâmico quanto ao não-islâmico. Conseqüentemente, o movimento islâmico deve observar estas duas matérias desde os estágios iniciais da sua formação a fim de atingir o objetivo colimado. Estas duas matérias são:

Em primeiro lugar, eleições livres e justas dentro do próprio movimento e um certo equilíbrio de poder. É natural que surjam divisões dentro do movimento. Isso na vida é comum, mas entre essas divisões deve haver eqüidade, equilíbrio e competência, de modo que um único grupo não assuma o controle do movimento e o transforme numa ditadura. Qualquer movimento pode se tornar uma ditadura pelo simples fato de um grupo obter a soberania sobre os outros. Isso significa morte para o movimento, ainda que ele permaneça vivo superficialmente.

Antes do golpe militar ocidental no Iraque e embora o colonialismo britânico estivesse em autoridade na época, isso não era tão poderoso e impetuoso quanto o colonialismo que aqueles que se proclamavam republicanos trouxeram. Na realidade, eles não eram republicanos, nem al-Karim, nem al-Salam, nem al-Bakr e tampouco eram aqueles que vieram depois deles. Eles não eram senão agentes de Israel, da Inglaterra e da América. Em todo o caso, no tempo da monarquia, muitos partidos políticos, independentes deles se chamarem Partido Nacional ou Partido Progressivo ou até mesmo o Partido Islâmico, todos eles fracassaram pelo fato de um grupo colonialista ou despótico ter ganhado o controle sobre eles desde o seu início e também não havia eleições livres, igualdades e distribuição do poder. Isso deve ser uma lição para nós. O movimento islâmico deve possuir bases poderosas, que sejam iguais e competitivas, mas a competição deve ser pelo bem e não pelo mal, em direção a uma ação decisiva, a atração de pessoas e ao aumento de padrões. Como Allah disse em três versículos do Alcorão: “e para isso deixai os competidores competirem” (3:133), “Empenhai-vos na prática das boas ações” (2:148) e “Emulai-vos, pois, na benevolência” (5:48).

Seja qual for o caso, é imperativo que o movimento islâmico observe a paz entre os diferentes grupos do movimento e, caso uma ditadura ganhe poder sobre o movimento, então não haverá nenhuma paz, pois a paz é gerada a partir de bases iguais de poder. Se, por acaso, uma ditadura ganhar o poder, ela não irá mudar e o movimento não será capaz de mudá-la também. Então, esse grupo agirá despoticamente em relação às finanças, em relação à reputação do movimento e em relação ao desejo do movimento. Nós vimos quão fácil foi para o colonialismo tomar as rédeas do poder dos ditadores, haja vista que a população foi arrancada da equação e o poder foi entregue a quatro, cinco ou dez pessoas apenas. Entretanto, se o movimento tivesse sido um movimento popular, o colonialismo não teria sido capaz de tomar as rédeas do poder das mãos do povo.

É imperativo, que o movimento observe os dois seguintes pontos. Primeiramente, o movimento deve ser formado por diferentes ramos, poderes igualmente equilibrados, diferentes grupos, cada qual com as suas respectivas tendências e inclinações, ainda que a estrutura seja a mesma, que é o popular movimento islâmico. É absolutamente natural que os gostos das pessoas sejam diferentes e cada uma delas deve ter o direito de dar a sua própria opinião num clima de completa liberdade, seja ela de expressão, de escrita e de reuniões e viagens. Cada pessoa deve trabalhar de acordo com a sua própria opinião, da forma como nós vemos acontecer com os juristas religiosos. As suas fontes são o Alcorão, a Sunnah, o consenso e o intelecto, mas mesmo assim eles divergem em certas particularidades em todas as áreas da jurisprudência. Isso também se aplica aos médicos, engenheiros e astrônomos nos congressos das nações livres e semilivres.

 

Em segundo lugar, o movimento deve manter eleições anuais ou bienais. A marca de eleições livres é uma completa mudança de ponta a cabeça e não eleições fraudulentas como em algumas nações, partidos e organizações, onde os líderes não mudam e apenas algumas pequenas coisas são modificadas como uma espécie de tática. Outra marca de eleições livres é que o número de votos varia como, por exemplo, de 51% ou 55% ou 60%. Quanto a eleições forjadas como aquelas dos Bathistas ou dos Nacionalistas, nós vemos 99% dos votos indo para o atual presidente e 1% ou menos indo para o seu oponente. Isso não passa de fraude, mentira e não faz nada além de formar uma ditadura. Um cientista político delineou dois critérios para avaliar se um país é livre ou não. O primeiro é verificar se os líderes do país mudam a cada quatro anos. O segundo é saber se as pessoas têm o direito de falar livremente nas ruas, escreverem o que desejarem ou publicarem revistas e jornais conforme a sua vontade. Esses dois critérios devem ser observados dentro do próprio movimento, de modo que ele possa ser totalmente livre, sob a condição de que essa liberdade esteja dentro dos limites islâmicos.

Através disso, o movimento será capaz de continuar a se expandir e progredir, e isso será acompanhado de paz. Desse modo, o movimento culminará com o governo de um milhão de muçulmanos pela graça de Allah.

Instilando Paz

O processo de instilar e instruir a alma exerce um grande efeito na psique humana. Os humanos são, por natureza, propensos à revolta e à cólera, a observar as falhas dos outros e ao ódio e ao desdém, a inimizade e ao corte de relações. É imperativo que a raiz dessas coisas seja extirpada do nosso coração e, depois disso, do resto do nosso corpo. Isso pode ser obtido instilando na alma que o ser humano é um ser pacificador, decisivo, inteligente, pensante, administrador e resoluto. Se o indivíduo instilar isso dentro da sua alma dia e noite e por toda a sua vida, ele acabará desenvolvendo uma natureza pacífica e será capaz de fazer o movimento islâmico progredir, mesmo que num ambiente de guerras, revoltas e revoluções.

É dito num hadith: “A coisa mais digna de ser refreada é a língua”. Portanto, o indivíduo deve se acostumar a resguardar a sua língua e o seu coração.

Em outro hadith é dito: “Se tu vires o crente em silêncio, aproximai dele, pois ele está recebendo sabedoria”.

O indivíduo também deve resguardar a sua mão e a sua caneta, seus movimentos e suas pausas, e tudo o mais, a fim de que ele faça o movimento islâmico progredir. Aqueles que dizem: “Nós somos nervosos e não conseguimos suportar pressões” ou “Fulano depreciou a nossa opinião” ou “Nós achamos que ele está errado, portanto como é que nós podemos ficar calados?”. Esses tipos de pessoas não são capazes de fazer o movimento evoluir.

Assim, nós vemos na história do Mensageiro de Allah (S) e na história dos movimentos bem-sucedidos, várias pessoas desse tipo. Um hadith relata que um infiel veio ao Mensageiro de Allah (S) e o amaldiçoou enquanto ele estava na sagrada mesquita recitando o Alcorão. O Mensageiro de Allah (S) não disse uma palavra em resposta, mas, é óbvio, o homem queria provocar uma briga com o Profeta. Este permaneceu calmo e quieto, mas o homem continuou a amaldiçoá-lo repetidas vezes. Então, ele cuspiu na face do Mensageiro de Allah (S) e continuou dizendo: “Muhammad não fez mais do que limpar o cuspe da sua face e não disse um ai”. O que fez o Mensageiro de Allah agir assim quando ele tinha o direito de retaliar na mesma medida, como é dito no versículo corânico: “A quem vos agredir, rechaçai-o da mesma forma” (2:194). Isso aconteceu porque o Mensageiro de Allah viu que entrar numa disputa com aquele infiel não era importante e não serviria ao seu propósito. Por isso, ele retornou com paz e continuou no caminho que Allah havia escolhido para ele. Assim, o movimento islâmico obteve êxito por causa da clemência, paciência e pacifismo do Mensageiro de Allah (S). O poeta diz: “Vós nunca sereis capazes de ser clementes até que vós adoteis clemência”. Isto é, se existe revolução no seu coração, não permita que ela venha à tona, mas adote a clemência e a paciência e controle-se para que você possa se tornar um pacificador, mesmo que nos piores momentos de irritação.

Há outro relato sobre o Mensageiro de Allah (S) que ele passou pela família de Iasir – Iasir, Sumaiah e Ammar – quando os politeístas estavam torturando-nos. Ele os fitou com ternura e disse: “Paciência, ó família de Iasir, pois vos foi prometido o paraíso”. Ele não fez nada mais do que isso. Isso porque o Mensageiro de Allah (S) sabia que se ele entrasse numa contenda com os torturadores, ele perderia a sua causa principal e não alcançaria o seu objetivo principal, que era estabelecer os pilares do Islam. Assim, o Mensageiro, os seus companheiros justos e a sua impecável família eram caracterizados pelo maior grau de paz e pacifismo, autocontrole e controle da língua, da mão e da reação. E por causa da paz deles, eles conseguiram obter progresso.

Nós também vemos que alguns reformadores que conseguiram salvar os seus países do jugo do colonialismo eram capazes de se controlarem. Um determinado indivíduo que não era capaz de fazer isso e que se irritava ante as coisas mais insignificantes, começou a incutir em si próprio as qualidades de um pacificador que quer o bem para todas as pessoas. Ele costumava dizer: “Todo dia quando eu acordava de manhã, eu instilava essas coisas dentro de mim e também quando eu ia dormir até eu ser capaz de suportar pressões e insultos”.

O muçulmano incute em si próprio a paz toda manhã, toda tarde, todo pôr-do-sol e à noite durante as orações obrigatórias, quando ele repete em toda oração: “Que a paz e a misericórdia e as bênçãos de Allah estejam contigo ó Profeta. Que a paz esteja com os servos justos de Allah. Que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Allah estejam convosco”. Paz ao líder, ou seja, o Mensageiro de Allah (S), paz a si próprio e paz para todas as outras pessoas. Isso simboliza o pacifismo do líder, o pacifismo das pessoas e o pacifismo da comunidade islâmica ou, mais que isso, pois dizer: “que a paz esteja convosco” abarca o desejo de paz a todos. Desse modo, o muçulmano inclui paz dentro de si pelo menos quinze vezes todos os dias. Se o indivíduo instilar a paz dentro de si, ele terá a paz que o levará ao progresso, a suportar dificuldades, não se irritar com os outros em função de palavras ofensivas, difamação, calúnia e etc. Tem um hadith no qual o Mensageiro de Allah (S) viu duas pessoas se amaldiçoando mutuamente, então ele disse: “Eles são dois Shaitan insultando um ao outro”.

Seja qual for o caso, o movimento islâmico que tenciona instituir o governo islâmico internacional deve adotar a paz como o seu lema e lutar pela mesma. Não a paz dos comunistas, pois essa é a paz da infidelidade e do assassinato. O que nós buscamos é um Islam à sombra da paz, o que quer dizer, à sombra de Allah, pois um dos Seus nomes é al-Salam (Paz):

“Ele é Allah, não há mais divindade além d'Ele, o Soberano, o Augusto, o Salvador, o Pacífico, o Zeloso, o Poderoso, o Compulsor, o Supremo!” (59:23).

O que nós buscamos é a paz à sombra da paz, que é à sombra de Allah e à sombra do Islam. Com efeito, nós devemos sempre tentar incutir paz e compaixão dentro de nós, mesmo que para com o inimigo, de modo que nós o tragamos à senda reta. É relatado que se o dano sofrido pelo Mensageiro de Allah (S) da parte do seu povo se tornasse muito grande, ele dizia: “Ó Allah, oriente o meu povo, pois eles não têm conhecimento”. Ele não procurava invocar Allah contra eles, mas pelo contrário, ele rogava para Allah guiá-los. No final, o Mensageiro de Allah (S) alcançou o sucesso que não tem paralelo em todo o mundo. Nós rogamos a Allah para nos conceder tal sucesso nisso. Certamente, Ele é o Concessor de sucesso e o melhor Auxiliador.

1. Aicha havia incitado uma guerra contra o Imam Ali que ficou conhecida como a Guerra de Jamal.

 


 
 
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