Uma Breve Biografia do Profeta Muhammad
E não te enviamos senão como Misericórdia para Humanidade”
Alcorão Sagrado, Os Profetas (21): 107.
“E não te enviamos senão como alvissareiro e admoestador aos humanos”
Alcorão Sagrado, Shiba (34): 28.
Sua Infância
Sua Maioridade
Início da Sua Missão
Ecos do Seu Chamado
Neutralizando o Mensageiro de Allah e a Sua Mensagem
Fim de Um Tormento e Início de Outros
A Migração do Mensageiro de Allah
O Mensageiro de Allah Chega a Medina
A Primeira Comunidade Muçulmana
A Libertação de Meca
A Ordem Islâmica Ideal
As Duas Coisas Momentosas
O Profeta Muhammad era o filho de Abdullah que era filho de Abdul Muttalib, o qual era filho de Hashim, cujos ancestrais remontam ao Profeta Ismael, filho do Profeta Abraão, que a paz esteja com ele.
Muhammad nasceu na cidade de Meca, na Arábia, numa sexta-feira, dia 17 do mês lunar de Rabi-I no ano de 570 d.C. numa nobre família cujos pais e ancestrais figuravam entre os chefes da tribo Coraich e do clã Bani-Hashim.
Sua missão profética iniciou-se no ano de 610 d.C. mais especificamente no dia 27 do mês de Rajab quando ele recebeu pela primeira vez a revelação divina. A partir de então, o Alcorão passou a ser revelado ao Profeta gradativamente de acordo com as circunstâncias do momento num período de 23 anos.
O Profeta Muhammad foi assassinado por envenenamento no dia 28 do mês de Safar, no décimo primeiro ano da Hégira [1] ou 630 d.C.
Sua Infância
O Pai de Muhammad, Abdullah ibn Abdul Muttalib, era o melhor e o mais piedoso filho de Abdul Muttalib, bem como o seu preferido. Abdullah morreu quando Muhammad ainda estava no ventre de sua mãe. Tudo o que ele deixou foi cinco camelos e uma criada chamada Baraca, também conhecida como Umm Aiman, que mais tarde se tornaria a babá de Muhammad. Abdullah era crente e um autêntico monoteísta.
Após a morte de Abdullah o avô de Muhammad, Abdul Muttalib, se tornou seu tutor. Ele era um dos chefes da tribo Coraich e um crente em Allah (da maneira do Profeta Abraão) assim como também o era Abu Talib, um dos irmãos de Abdullah. Abdul Muttalib sempre honrou e respeitou os seus tratados e sempre foi uma pessoa da maior retidão. Ele amava os pobres, auxiliava os peregrinos e chegava mesmo a alimentar os animais selvagens no topo das montanhas. Ele também costumava alimentar as pessoas em tempos de escassez e coibia a opressão e os opressores.
A mãe de Muhammad se chamava Aaminah, filha de Wahab, filho de Abd Manaf, que por sua vez era filho de Kitab. Ela também era uma crente em Allah.
Quando Muhammad nasceu sua mãe disse: “Assim que eu coloquei o meu bebê no chão ele apoiou suas mãos no solo, levantou sua cabeça em direção ao céu e olhou para o horizonte enquanto recitava durante o tempo todo frases de monoteísmo. Então uma voz me chamou dizendo: ‘O maior dos homens nasceu, nomeia-o pois de Muhammad.’”
Então Aaminah foi a Abdul Mutalib. Ele veio até ela, a qual lhe disse: “Um menino maravilhoso nasceu para ti.” Então ela trouxe o bebê Muhammad até ele. Abdul Muttalib olhou para ele, o tomou nos braços, entrou na Caaba [2] e orou para Allah. Depois ele deixou a Caaba, o retornou a sua mãe e o nomeou de Muhammad.
Muhammad não havia completado sete anos ainda quando a sua mãe morreu. Após a morte de sua mãe, o seu avô, Abdul Muttalib, assumiu a sua guarda. Em função do conhecimento que tinha do status da criança e de sua fé nele, ele lhe dispensou maior carinho e atenção do que a qualquer um dos seus filhos. Certa vez um grupo do clã Midlaj veio a Meca e quando eles viram Muhammad eles disseram ao seu avô: “Tome conta dele, pois nós nunca vimos outro desse status.”
Abdul Muttalib disse para Abu Talib em seu testamento para levar a sério o que eles haviam dito e para tomar conta dele. Muhammad contava oito anos de idade quando seu avô morreu, ele então foi deixado aos cuidados do seu tio Abu Talib.
Abu Talib, chefe do clã Bani Hashim do Coraich [3], se tornou assim o guardião de Muhammad a partir dos seus oito anos de idade. Abu Talib sempre serviu e protegeu o Mensageiro de Allah, o defendendo e honrando-o durante todos os momentos difíceis da sua Profecia até o seu último suspiro.
Sua Maioridade
Muhammad cresceu para se tornar um jovem refinado. Ele se tornou conhecido por suas excelentes maneiras, e devido a sua honestidade em suas condutas e negócios ele era chamado de al-Sadiq (O Verídico) e al-Amim (O Fidedigno).
Quando jovem, Muhammad costumava acompanhar o seu tio em suas viagens de negócios à Síria. Quando ele completou vinte anos de idade ele partiu para uma viagem a Busra junto com seu tio. Lá ele foi visto por um monge cristão chamado Georges que o reconheceu pela sua fisionomia. Ele tomou a sua mão e disse: “Este é o Chefe da Humanidade. Deus o enviará como Misericórdia para Humanidade.” Abu Talib disse: “Como é que você sabe disso.” Ele respondeu: “Nós encontramos menção dele nos nossos livros.” Ele pediu para Abu Talib levá-lo de volta, temendo pela sua segurança.
Quando adulto, Muhammad trabalhou como comerciante entre as cidades de Meca e Damasco ganhando grande reputação nesse processo. Tendo ouvido a respeito da reputação de Muhammad, Khadijah, uma das mulheres mais nobres do Coraich, o encarregou, em certa ocasião, de alguns de seus negócios entre as duas cidades e enviou uma das suas criadas, Maisarah, para ficar de olho nele a fim de relatar-lha o que ela tinha visto. Tendo visto seu desempenho nos negócios e o retorno financeiro que ele tinha produzido, bem como a sua honestidade, Khadijah decidiu deixar seus negócios sob a responsabilidade de Muhammad. Apesar de ter recebido várias propostas de casamento, de vários dignitários do Coraich, Khadijah recusou todos eles. É relatado que foi Khadijah quem – embora de forma discreta e indireta – fez a proposta de casamento a Muhammad. Alguns historiadores relatam que ambos tinham 25 anos quando se casaram em 595 d.C.
Khadijah deu a luz a três crianças. O Profeta teve todos os seus filhos com Khadijah, com exceção de Ibrahim que era filho de Maria, a Copta, o qual nasceu em Medina e viveu por um ano e dez meses. Os filhos do Profeta que nasceram em Meca eram: al-Qasim, donde vem o apelido de Muhammad Abul Qasim (Pai de Qasim) e Abdullah. Ambos morreram muito jovens durante a vida do Profeta. Sua única filha foi Fátima que se casou com o Imam Ali filho de Abu Talib e deu a ele cinco filhos: Imam Hasan, Imam Husein, Zainab, Umma Kuulzun e um outro filho a quem o Profeta dera o nome de Muhasssin antes dele ter nascido. Fátima foi a única dentre os filhos do Mensageiro de Allah a sobreviver a ele. O Profeta Muhammad costumava dizer: “Hasan e Husain são dois Imams (líderes) quer eles se insurjam (contra a tirania) ou não.”
Ali era filho de Abu Talib e de sua mulher Fátima bint Assad e nasceu em 600 d.C. O nascimento de Ali foi associado, particularmente, a um fenômeno significativo. Quando Fátima bint Assad estava em trabalho de parto ela se dirigiu a Caaba suplicando a Allah por ajuda com o seu parto. É relatado por vários narradores e registrado em diversas crônicas que enquanto ela estava engajada em suas orações, próximo ao muro meridional da Caaba, este se abriu e ela então entrou na casa. Tão logo ela entrou, o muro retornou ao seu estado normal. Tendo observado esse extraordinário fenômeno, as pessoas (que presenciaram o evento) tentaram entrar na Casa junto com ela através da abertura, porém não obtiveram sucesso. Então, elas tentaram entrar na casa através da sua porta, mas também não conseguiram abri-la. Os relatos indicam que ela permaneceu na Casa por três dias e quando ela finalmente saiu de lá junto com o seu bebê recém-nascido, ela o fez da mesma maneira como entrou.
O Profeta Muhammad tomou um interesse particular pelo bebê Ali e exerceu uma grande influência no seu crescimento e na sua educação. Ali seria o mais ardente partidário do Profeta através de todos os anos difíceis da sua missão de transmitir a mensagem e os ensinamentos do Islam às massas populares.
O Início da Sua Missão a scretamad.das criadas, Maisarah, para ficar de olho nele a fim de relatar-lhe o que ela tinha vis
O Profeta Muhammad costumava passar grande parte do seu tempo orando e em adoração ao Deus Único e Absoluto numa caverna conhecida como Hira, na montanha de al-Nur, perto da cidade de Meca.
No ano de 610 d.C. aos quarenta anos de idade, Muhammad recebeu a primeira revelação divina enquanto orava dentro da caverna de Hira: “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso; Lê em nome do Teu Senhor que criou, Criou o homem do coágulo, Lê e Teu Senhor é o mais Generoso, Que ensinou pela pena, Ensinou o homem o que ele não sabia...” [4]
O Profeta Muhammad transmitiu as boas-novas e a Mensagem a Ali e a Khadijah. Ambos aceitaram a nova revelação imediatamente e sem qualquer hesitação.
Khadijah foi, portanto, a primeira mulher a acreditar no Mensageiro de Allah e a orar com ele. Ela o apoiou de forma irrestrita e gastou toda a sua fortuna na causa de Allah. Ela foi a primeira esposa do Profeta, sendo que ele não se casou com nenhuma outra mulher durante o período em que estava casado com ela. Ela era totalmente leal a ele. O Anjo Gabriel ordenou que ele transmitisse a ela um cumprimento especial e uma benção de Allah, bem como que ele desse a terra de Fadak à Fátima como uma recompensa pelo que a mãe dela havia gastado pela causa de Allah.
O Profeta Muhammad começou a convidar as pessoas à nova revelação de forma secreta. Havia muito poucos apoiadores e crentes naquele tempo. Quando o Profeta realizava a oração em congregação, aqueles que estavam com ele eram sempre Khadijah e Ali. Essa atitude discreta continuou por três anos.
Mais tarde sob instruções de Allah, o chamado do Profeta ao Islam começou a se tornar cada vez mais público. Allah instruiu o Seu Mensageiro a começar com o seu clã: “E admoestas teus parentes mais próximos.” [5]. Com esse propósito o Profeta preparou um banquete e convidou os decanos e chefes do Bani Hashim, quarenta ao todo. Depois que o banquete foi servido, o Profeta os convidou ao Islam, pedindo que eles o apoiassem na sua missão e prometendo que quem assim o fizesse seria nomeado seu sucessor. Porém, ninguém aceitou a oferta, desdenhando o Profeta e a sua missão e a considerando uma tolice, com exceção de Ali. Então eles se dirigiram a Abu Talib dizendo em tom de chacota: “Seu filho será seu comandante. Você deve obedecer a ele.” Contudo, mesmo com muito poucos seguidores, a missão continuou inabalável.
Ecos do Seu Chamado
O número dos seguidores da nova religião começou a crescer, assim como a preocupação do Coraich em relação a eles. Os decanos do Coraich enviaram o tio do Profeta, Abu Talib, para tentar convencê-lo a interromper o seu chamado a essa nova religião e em troca eles lhe dariam tudo aquilo que ele quisesse. “Se você quer riqueza, nós te daremos tanto quanto você quiser. Se você quer mulheres, nós te casaremos com a mais linda mulher da Arábia. E se você quer posição e status, nós faremos de ti o nosso rei.” Quando Abu Talib transmitiu a mensagem dos decanos do Coraich ao seu sobrinho profeta, este respondeu: “Eu juro por Allah que mesmo que eles colocassem o Sol na minha mão direita e a Lua na minha mão esquerda sob a condição de que eu abandone essa missão, eu não a deixaria até que Allah a faça prevalecer ou eu morra no processo.” Então o Mensageiro de Allah começou a chorar, se levantou e principiou a sair, mas Abu Talib o chamou dizendo: “Venha cá meu sobrinho. Diga o que você quiser, pois, por Allah, eu nunca irei te entregar a eles. Nunca.”
Então o Coraich percebeu que estava lidando com um verdadeiro e resoluto Profeta. Desde então, as hostilidades contra essa nova religião, contra o Profeta e contra os seus seguidores começaram a crescer. Khadijah dedicou toda a sua riqueza e recursos pela causa e missão do seu marido profeta. Essas hostilidades incluíam perseguições implacáveis contra o Profeta e contra os seus seguidores.
“Neutralizando o Mensageiro de Allah”
Então o Coraich fez um conluio entre si contra os companheiros do Mensageiro de Allah que haviam abraçado o Islam e faziam parte das suas tribos. Cada tribo se encarregaria dos seus membros que eram muçulmanos, atormentando-os e os forçando a abandonarem a religião. Abu Talib protegeu o Mensageiro de Allah e ao perceber o que Coraich estava fazendo com os filhos de Hashim e Abdul Muttalib, ele pediu que, assim como ele, eles também protegessem o Mensageiro de Allah. Então eles se reuniram com ele e resolveram se juntar a ele, com exceção do irmão de Abu Talib, Abu Lahab, e seus filhos que haviam assistido o Coraich contra o Profeta.
Então o Coraich decidiu publicamente matar o Mensageiro de Allah. Quando essas notícias chegaram a Abu Talib, ele reuniu os filhos de Hashim e Abu Muttalib e levou o Mensageiro de Allah ao seu refúgio, protegendo-o daqueles que tentavam matá-lo.
O Coraich impôs um rígido embargo contra o Profeta e seus seguidores em todos os aspectos possíveis: social, econômico, político, etc. Nenhum cidadão de Meca tinha permissão para comercializar com eles. Ninguém poderia casar-se, socializar-se, ajudar ou ter amizade com qualquer um deles. Qualquer acordo de paz proposto por eles deveria ser rejeitado. E nenhum sinal de misericórdia deveria ser demonstrado para com eles até que eles entregassem o Mensageiro de Allah para ser assassinado.
O Coraich decidiu redigir um documento com essa finalidade que depois de pronto foi colocado no interior da Caaba. Posteriormente, o redator desse documento teve a sua mão afetada por uma paralisia.
O Profeta, os membros do Bani Hashim e grande parte dos seus seguidores se juntaram a Abu Talib e entraram no seu refúgio mais conhecido como Shib Abu Talib que acabou se tornando a prisão virtual deles. A cada dia que passava a condição deles se deteriorava mais e mais e embora alguns amigos e simpatizantes conseguissem prestar algum auxílio aos muçulmanos às escondidas, isso não era suficiente para satisfazer as suas necessidades. Eles permaneceram nesse refúgio por três anos até chegarem à total exaustão. Vozes de crianças famintas podiam ser ouvidas de lá. O Coraich também aumentou a pressão sobre aqueles indivíduos que haviam abraçado o Islam, mas não tinham entrado no refúgio. As privações se tornaram cada vez mais rígidas e os muçulmanos foram severamente abalados. É relatado que Ali filho de Abu Talib costumava sair secretamente do refúgio sob disfarce e trazia de volta alimentos que ele carregava nas suas costas para os sitiados.
Em uma das revelações divinas feitas ao Mensageiro de Allah, ele informou ao seu tio que Allah havia enviado carcomas ao documento que os idólatras haviam redigido, os quais haviam comido cada palavra daquele documento, com exceção do nome de Allah. Tendo ouvido isso Abu Talib disse: “Não, pelas estrelas que caem, você não mentiu para mim.”
Abu Talib partiu com um grupo do clã de Abdul Muttalib até chegar às proximidades da Caaba que estava lotada pelo o povo do Coraich. Ele declarou a eles: “Ocorreu algo que talvez seja uma causa de um acordo entre nós. Portanto traga o vosso documento.”
Eles disseram: “Chegou a hora de você aceitar e retratar-se. Um único homem causou a nossa separação e você colocou o seu povo em perigo por causa dele.”
Abu Talib disse: “Eu vos proponho um caso no qual há justiça. Meu sobrinho me contou – e ele não mentiu para mim – que Allah Se distanciou desse documento e apagou toda a vossa falsidade e animosidade e tudo aquilo que foi escrito em Seu nome. Se o que ele disse é verdade então, por Allah, nós nunca o entregaremos a vós até que o último de nós morra. Porém, se o que ele disse é falso então nós o entregaremos a vós para que possais matá-lo ou fazer dele o que bem entenderem.”
Eles disseram: “Nós concordamos”. Então eles abriram o documento e o encontraram do modo como lhes tinha sido narrado, mas mesmo assim alguns deles se agarraram as suas falsidades e obstinadamente disseram: “Isso é magia do seu companheiro.”
Então alguns daqueles que haviam feito o pacto se manifestaram e rasgaram o documento.
Fim de Um Tormento e Início de Outros
O Clã Hashim se sentiu então seguro o suficiente para emergir do seu refúgio e voltar a se misturar com as pessoas. Isso aconteceu depois de dez anos do início da missão profética, cerca de 620 d.C.
A menos de seis meses do fim da sua provação, Abu Talib faleceu. Três dias depois, de acordo com alguns relatos, a esposa do Profeta, Khadijah, também faleceu. O Mensageiro de Allah ficou muito abalado e nomeou aquele ano como “O Ano do Sofrimento”
A perda de Abu Talib e Khadijah infligiu um duro golpe no Profeta justamente na época em que ele mais precisava deles. A morte de Abu Talib removeu o último empecilho ao Coraich e se a presença de Abu Talib impunha certos limites ao Coraich que eles não podiam atravessar, depois de sua morte eles ficaram livres para fazer com o Profeta tudo aquilo que seria impensável na época de Abu Talib.
Com a morte Abu Talib, os tormentos causados ao Mensageiro de Allah por sua tribo se tornaram mais violentos e audaciosos.
Certa vez, enquanto o Profeta estava orando na Caaba, um idólatra se aproximou dele e tentou estrangulá-lo violentamente.
O Coraich encorajou pessoas néscias a jogarem sujeiras na cabeça e no rosto do Profeta. Eles costumavam arremessar lixo, sangue e espinhos na sua porta. Ummaiah ibn Khalaf costumava insultar o Profeta até que a sua face ficasse vermelha, mas mesmo assim o Profeta não dizia nada para ele.
Certa vez, depois de um néscio ter jogado imundícies no rosto do Mensageiro de Allah, ele entrou em sua casa com a sujidade ainda na cabeça. Então, Fátima, aos prantos, começou a retirar a sujeira da sua cabeça, donde o Mensageiro de Allah disse a ela: “Não chore minha filha, pois Allah protegerá o seu pai.”
Ele também dizia: “O Coraich não podia me causar danos antes da morte de Abu Talib.”
É narrado por Khalab: “Eu me aproximei do Profeta enquanto ele estava descansando sob a sombra da Caaba. Isso quando nós tínhamos acabado de receber alguns danos dos Politeístas. Eu disse a ele: ‘Ó Mensageiro de Allah, você não vai invocar a Allah?’ Ele se sentou – com sua face vermelha – e disse: ‘Dentre aqueles que vieram antes de vós, havia pessoas cujas peles eram dilaceradas com pedaços de aço que penetravam até os seus ossos e isso não os afastava da sua religião. Allah concluirá essa questão até que um indivíduo viaje de Sana a Hadramat sem nada a temer a não ser o (temor) de que um lobo devore a sua ovelha.’”
A Migração do Mensageiro de Allah
O Coraich e seus aliados tomaram a decisão de que Muhammad deveria ser eliminado para acabar com ele e com a sua religião de uma vez por todas. Porém, quem quer que tivesse que fazer isso teria que sofrer as conseqüências e enfrentar a ira do respeitável Bani Hashim. A fim de dividir a culpa entre tantos clãs e tribos quanto possíveis, quarenta clãs tiveram que se envolver na tarefa. Os melhores guerreiros de cada clã foram escolhidos para executar a missão. Eles foram instruídos a invadir a casa de Muhammad sendo que cada um deles teria que golpeá-lo com suas espadas pelo menos uma vez. Assim, se o clã de Muhammad, Bani Hashim, quisesse vingar o seu sangue, eles teriam que enfrentar quarenta clãs, tornando impossível para eles qualquer tipo de retaliação.
Deus, Imponente e Majestoso, instrui o Seu Profeta a partir para a cidade de Yathrib, que mais tarde ficou conhecida como Medinat al-Rasul (A Cidade do Mensageiro) ou simplesmente Medina.
No ano de 622 d.C. depois de treze anos de pregação do Islam, o Mensageiro de Allah deixou Meca e partiu para Medina. Ele pediu que Ali permanecesse em Meca para lidar com certas questões e Ali se prontificou a dormir na cama do Profeta atuando como uma isca. O Mensageiro de Allah conseguiu passar despercebido do cerco imposto pelos seus pretensos assassinos em torno da sua casa pouco antes deles a invadirem. Quando eles invadiram a casa para matá-lo, em vez do Profeta, eles encontraram Ali na sua cama, sem nenhum sinal da sua vítima.
Quando o Profeta estava deixando a cidade, Abu Bakr cruzou o seu caminho e perguntou a ele a que lugar ele estava indo àquela hora. Como o Profeta Muhammad não podia dizer senão a verdade, ele pediu que Abu Bakr se juntasse a ele na sua migração para Medina de modo a manter secreta a sua missão até que ele estivesse fora de perigo.
Assim que o dia raiou, os quarenta guerreiros partiram em perseguição ao Profeta seguindo as suas pegadas. Eles utilizaram um guia para ajudá-los a capturá-lo. O guia os levou a caverna de Thawr – a cerca de
8 km
de Meca – onde o Profeta e o seu companheiro se encontravam. Contudo, eles não chegaram a entrar na caverna, isso porque, de acordo com os ditos, no momento que eles chegaram, através da intervenção divina, uma aranha fez uma teia por toda a abertura da caverna e uma pomba havia colocado um ninho perto dali, depois de os dois terem entrado nela. Então, os perseguidores presumiram que se alguém tivesse entrado na caverna a teia de aranha e o ninho da pomba teriam sido danificados.
Não tendo conseguido capturar o Profeta, o Coraich anunciou um recompensa de 100 camelos para quem o capturasse ou fornecesse informações que levassem a sua captura.
O Profeta Muhammad deixou Meca às vésperas do dia 1 de Rabi’-I e alcançou os limites de Medina, que fica cerca de
400 km
da cidade de Meca, na segunda-feira do dia 12 do mesmo mês.
Outra tarefa que Ali bin Abu Talib teria que fazer em Meca depois da partida do Profeta era devolver os bens e objetos de valor que as pessoas haviam deixado sob a custódia do Mensageiro. Muitos inimigos do Profeta costumavam deixar seus objetos de valor sob a sua custódia também toda vez que eles empreendessem uma longa viagem ou coisas semelhantes. Isso porque o Profeta era conhecido por sua honestidade mesmo para com os seus inimigos; eles podiam não confiar em seus melhores amigos para guardar os seus objetos pessoais, mas em Muhammad al-Amim (o Fidedigno) eles confiavam. Ali devolveu todos os bens e objetos de valor que foram deixado sob a custódia do Profeta, inclusive aqueles dos seus inimigos.
Depois de ter devolvido todos os pertences que haviam sido confiados ao Profeta Muhammad para seus legítimos donos, Ali se dirigiu à parte superior da Caaba e bradou: “Se alguém tiver qualquer reclamação contra Muhammad ou tiver confiado a ele qualquer coisa que ele não tenha devolvido ainda, então que se apresentem.” É relatado que ninguém o fez.
Tendo cumprido todas as suas funções em Meca, Ali partiu para Yathrib junto com sua mãe, Fátima bint Assad, Fátima, a filha do Profeta, e Fátima filha de Zubair.
O Mensageiro de Allah Chega a Medina
Quando a notícia do êxodo do Mensageiro de Meca para Medina chegou aos muçulmanos em Medina, eles começaram a ir toda a manhã para um campo local conhecido como al-Harrah e ficavam esperando lá até que o calor da tarde os levasse de volta. Eles esperaram por vários dias, até que certo dia, depois deles terem se recolhido para suas casas, um judeu que estava contemplando os horizontes da sua fortaleza avistou a silhueta do Profeta no nevoeiro. Assim que ele o viu, ele chamou os muçulmanos do mais alto da sua voz, dizendo: “Ó muçulmanos, aqui está o seu Mestre que vocês estão esperando.”
Os muçulmanos saíram correndo imediatamente para o topo do campo al-Harrah para se encontrarem com o Mensageiro de Allah. Ele, então, continuou caminhando até chegar a Qubaa onde parou junto com o clã de Amr ibn Awf. Na sua chegada, os muçulmanos, exultantes, exclamavam “Allahu Akbar” (Deus é o Maior). O Profeta ficou em Qubaa por três dias à espera de Ali. Ele não queria entrar em Medina sem a sua presença.
Depois da chegada de Ali o Profeta permaneceu em Qubaa junto com o clã de Amr ibn Awf por dois ou três dias. Durante a sua estada por lá ele estabeleceu a Mesquita de Qubaa, a primeira mesquita a ser construída na era islâmica.
Numa sexta-feira, o Profeta adentrou a Mesquita de Qubaa, liderou os muçulmanos na oração em congregação de sexta-feira e proferiu um sermão. Esse foi o primeiro sermão de sexta-feira a ser ministrado. O Profeta orou na direção de Jerusalém com cem homens orando atrás dele. Depois de ter realizado as orações, o Profeta montou o seu camelo e se dirigiu a Medina juntamente com Ali – que nunca saía do seu lado – e o resto dos muçulmanos.
Uma vez em Medina, as pessoas começaram a convidar o Mensageiro de Allah a ficar nas suas casas. Para não ter que rejeitar o pedido de ninguém o Profeta decidiu que iria ficar na casa em frente da qual a sua camela parasse. Ele disse: “Deixai ela ir, pois ela está sendo comandada.” A camela, então, continuou caminhando até chegar à porta da casa de Abu Ayyub, que por acaso era uma das pessoas mais pobres de Medina.
Então, Abu Ayyub se adiantou, pegou a bagagem do Profeta e a levou para sua casa.
A mãe de Abu Ayyub, que era cega, disse: “Ó, se ao menos eu tivesse visão para poder ver o meu mestre, o Mensageiro de Allah!” Então, o Profeta Muhammad clamou a Allah em favor dela e então os seus olhos se abriram. Esse foi o primeiro dos seus milagres em Medina.
É relatado que o dia em que o Mensageiro de Allah entrou em Medina foi o evento mais jubiloso já presenciado pelas pessoas. Uma testemunha disse: “Eu presenciei o dia em que ele entrou em Medina e jamais havia visto um dia mais radiante ou melhor que aquele. Eu também presenciei o dia em que ele morreu, e jamais havia visto um dia mais lúgubre ou pior que aquele no qual ele morreu.
A Primeira Comunidade Muçulmana
Tendo em vista que um número significante daqueles que abraçaram o Islam migraram de Meca para Medina, assim como a maioria dos nativos de Medina, pode-se dizer que a primeira comunidade muçulmana começou a tomar forma na cidade Medina, sob a orientação do Profeta. Através dos seus ensinamentos, o Mensageiro de Allah fez nascer paz e harmonia entre as diferentes tribos e grupos rivais e antagônicos da cidade e de suas redondezas, sendo que antes de sua chegada a ganância, a inimizade e as guerras prevaleciam entre os seus habitantes. Num curto período de tempo, o Profeta conseguiu plantar a semente da concórdia em seus corações de modo tal que eles passaram a dividir tudo aquilo que eles tinham entre si e também com os muçulmanos imigrantes de Meca, a despeito da pobreza deles. Como a cidade de Medina ficava cerca de
400 Km
de Meca, alguns muçulmanos consideravam essa distância como sendo razoavelmente segura contra o Coraich que vivia na sua maioria em Meca.
Contudo, o Coraich e seus aliados não cediam e forçaram os muçulmanos de Medina a participarem de uma série de batalhas e conflitos que eram na sua maioria desiguais, especialmente as primeiras delas, com o Coraich sendo superior em número e em armamentos. Na batalha de Badr, por exemplo, que foi uma das primeiras batalhas entre os dois grupos, os muçulmanos somavam 313 homens e tinham setenta camelos e dois cavalos, ao passo que os seus oponentes constituíam cerca de 1000 homens e possuíam setecentos camelos e cem cavalos.
A paz entre os dois grupos foi finalmente conseguida através do tratado de Hudaybiyah, assinado no décimo primeiro mês do sexto ano da Hégira, o qual era totalmente favorável ao Coraich e a seus aliados, tanto que alguns dos companheiros do Profeta protestaram contra ele por ter aprovado e assinado um tratado que era “injusto e inaceitável.” Todavia, eventos posteriores ao tratado que ocorreram em benefício dos muçulmanos, demonstraram a exatidão do juízo e da decisão do Profeta, comprovando a sua sabedoria e sagacidade.
A Libertação de Meca
Menos de dois anos após o tratado de Hudaybiyah, o Coraich se tornou impaciente com o ambiente de paz e segurança que reinava no local. As perdas dos muçulmanos na batalha de Mutah, ao norte da Arábia – onde hoje fica a Jordânia – estimulou o Coraich a promover agitações e a violar o tratado que eles haviam feito com o Mensageiro de Allah em Hudaiybiyah. Eles começaram a distribuir armas aos seus aliados e a incitá-los a atacar os aliados dos muçulmanos na calada da noite, em clara violação ao tratado de paz que eles tinham celebrado com os muçulmanos.
O Mensageiro de Allah deixou Medina numa sexta-feira do mês de Ramadan, no ano 8 da Hégira. Ele levou consigo todas as tropas muçulmanas que somavam ao todo dez mil homens e quatrocentos cavaleiros.
O Mensageiro de Allah seguiu caminho até chegar em Marr al-Zahran, o ponto mais alto de Meca, numa noite. Ele, então, instruiu que seus companheiros acendessem mais de dez mil fogueiras. As notícias do seu progresso haviam sido mantidas ocultas do Coraich, os quais temiam que ele pudesse atacá-los.
É relatado que Abu Sufian, o arque-inimigo do Profeta, disse: “Eu nunca tinha visto tantas fogueiras como ontem à noite nem tamanha concentração.” Ele também perguntou: “Quais são as boas-novas e o que significa essas fogueiras?”
O narrador respondeu a ele: “As boas-novas é que o Mensageiro de Allah acabou de chegar aqui. Ele veio com uma força contra a qual você não poderá oferecer resistência: dez mil muçulmanos.”
Abu Sufian disse: “O que está para ser feito.”
Eu disse: “Por Allah, se ele te derrotar certamente ele vai cortar a sua cabeça fora. Portanto monte nesse burro comigo de modo que eu possa te levar ao Mensageiro de Allah. Eu vou pedir que ele te conceda anistia.” Então, ele viajou atrás de mim.
É relatado que Ali ibn Abu Talib disse a Abu Sufian ibn al-Harith: “Vá até o Mensageiro de Allah e diz a ele aquilo que os irmãos de José disseram para o mesmo: ‘Por Allah, Allah vos preferiu sobre nós e certamente nós fomos pecadores’ [6]. Então, o Mensageiro de Allah disse em resposta: ‘Ele disse: Hoje não sereis reprovados. Allah vos perdoará e Ele é o mais Misericordioso dos misericordiosos.’ [7]
A bandeira dos muçulmanos era carregada por Saad ibn Ibadah. Quando ele passou por Abu Sufian, ele lhe disse: “Hoje é o dia do massacre. Hoje as mulheres serão capturadas.” Abu Sufian ouviu isso em silêncio e quando o Mensageiro de Allah passou por ele, disse: “Você sabe o que Saad ibn Ibadah falou?”
O Mensageiro de Allah disse: “O que ele disse é de nenhuma conseqüência.” Então, ele enviou alguém para tomar a bandeira de Saad e passá-la para Ali e disse: “Entre com benevolência.” Ali tomou a bandeira e começou a proclamar: “Hoje é o dia da misericórdia. Hoje a honra será preservada.”
Então o Mensageiro de Allah virou para Abu Sufian e lhe disse: “Ó Abu Sufian, siga para Meca e os leve para o santuário.”
Quando o Mensageiro de Allah chegou a Meca, uma tenda foi montada para ele perto do túmulo do seu tio Abu Talib. Ele se recusou a entrar em sua casa ou nas casas dos seus companheiros em Meca que tinham sido confiscadas pelos politeístas.
Após ter descansado um pouco na sua tenda e tomado um banho, o Mensageiro de Allah montou o seu camelo e partiu para Mesquita Sagrada. Os muçulmanos que o acompanhavam o cercavam por todos os lados, repetindo junto com ele as palavras de Allah: “A verdade chegou e a falsidade pereceu. De fato, a falsidade é (por natureza) perecível.” [8]
O som das suas vozes ecoava por toda a Meca, até que o Mensageiro entrou na Mesquita Sagrada, aproximou-se da pedra negra no canto da Caaba e a beijou. Então ele circundou a Casa montado em seu camelo com um arco em sua mão. Em torno da Casa havia cerca de trezentos e sessenta ídolos e ele começou a golpeá-los com o seu arco dizendo, enquanto os ídolos caíam diante dele: “A verdade chegou e a falsidade pereceu. De fato, a falsidade é (por natureza) perecível.” e “A verdade chegou e a falsidade não retornará nem renascerá novamente.” [9]. Ele colocou Ali sobre seus ombros para que ele pudesse derrubar o resto dos ídolos que estavam por sobre a Caaba.
E assim toda uma era de adoração a ídolos na Arábia chegou a um fim irreversível e Meca finalmente foi libertada. A conquista da capital dos idólatras e a libertação da cidade sagrada de Meca pelas mãos do Profeta Muhammad ocorreu sem nenhum derramamento de sangue.
Porém, o Profeta nunca mais adotou a sua cidade natal, Meca, como local de domicílio. Ele só permaneceu na cidade por quinze dias para administrar os seus assuntos. Quando ele deixou a cidade de Meca rumo a Medina, ele nomeou Itab ibn Usaid, 21 anos de idade, como governador.
A Ordem Islâmica Ideal
O Profeta foi estabelecendo, desde o início da sua missão, de forma gradativa, um modo de vida e um sistema de governo islâmico. Desde os seus primeiros anos de existência, a nascente comunidade muçulmana em Medina teve que enfrentar uma série de ataques e investidas violentas por parte do Coraich e dos seus aliados. O Profeta sempre aproveitou todas as oportunidades que surgiam para ensinar aos muçulmanos o código de conduta em tempos de paz e de guerra, desde qualidades éticas que eles deveriam procurar obter a diretrizes fiscais, sociais e políticas.
No campo político, o Profeta instruiu a sua comunidade a evitar as guerras e a violência tanto quanto possível e que elas só seriam lícitas em última instância, depois que todas as alternativas disponíveis houvessem sido esgotadas. O Profeta Muhammad fazia tudo que estava ao seu alcance para evitar conflitos e é registrado que nos dez anos em que ele esteve em Medina e apesar das várias batalhas em que os muçulmanos foram obrigados a participar, um total de apenas 800 pessoas foram mortas de ambos os lados durante todo o período. O Profeta instruiu o seu exército a não promover destruição de casas, fazer pilhagens ou derrubar árvores frutíferas. Ele os comandou a não desembainharem suas espadas, senão em casos de extrema necessidade. Ele costumava repreender os seus generais e reparar pessoalmente os erros que eles cometiam.
Outro princípio sócio-político promovido pelo Profeta Muhammad foi que: “A terra pertence a Allah e àqueles que a desenvolvem.” [10] Esse princípio teve um impacto bastante significativo no desenvolvimento do país, tanto social como politicamente, sem falar no progresso econômico e no renascimento que ele acarretava.
Uma outra diretriz sócio-econômica foi estabelecida pela declaração do Profeta: “Eu sou responsável por eles.” [11] Isso significa que quando um indivíduo morresse deixando uma família sem condições financeiras de se sustentar, essa família deveria recorrer ao Profeta porque ele seria responsável por ela. Por outro lado “aquele que morrer deixando patrimônio, isto é para os seus herdeiros.” [12] Isto é, todos os bens dele pertencem à família que ele deixar, ou seja, no Islam não existe taxas sobre herança. Mas essa diretriz não para por aí, e vai mais além, pois o Profeta anunciou que se uma pessoa morrer deixando dívidas a pagar, ele (Mohammad e posteriormente o Chefe do Estado Islâmico em geral) seria responsável pelo pagamento da dívida.
A legislação do Profeta também abarca os interesses dos não-muçulmanos que vivem sob a proteção do Estado Islâmico, conhecidos como zimmy, que literalmente quer dizer, “a responsabilidade de” (do Estado Islâmico): “Aquele que fere um zimmy, de fato está ferindo a mim.” [14]
Tais leis, ao lado da libertação pacífica de Meca, levaram várias pessoas a viver no Estado Islâmico, porque na pior das hipóteses eles iriam ter proteção e garantias econômicas para eles e para a sua família, tanto no presente quanto no futuro. As pessoas começaram a abraçar o Islam em massa como um código de vida para elas. Então, desceu a revelação divina:
“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso, Quando vos chegar o socorro de Allah e o triunfo, E vires as pessoas entrando na religião de Allah em massa, Então, celebra os louvores do teu Senhor e implore o seu perdão. De fato, Ele é Remissório.”
As Duas Coisas Momentosas
Na cidade sagrada de Medina, o Mensageiro se certificou de tratar das duas questões mais vitais durante a sua vida, pois elas seriam o santuário, o guia, e o líder dos muçulmanos depois da partida dele desta vida. Essas duas coisas eram a compilação do Alcorão como uma cópia completa e a nomeação dos seus sucessores para liderar a nação depois dele. Ambas as coisas foram feitas de acordo com as instruções divinas.
O Alcorão Sagrado
O Profeta se assegurou que providências fossem tomadas para se compilar uma cópia “encadernada” do Alcorão Sagrado, conhecido na época como mushaf. O Mensageiro de Allah incumbiu Amir al-Muminin (Comandante dos Crentes), Ali filho de Abu Talib, de reunir e compilar o Alcorão inteiro, tarefas que o Imam Ali cumpriu durante a vida do Profeta Sagrado e sob sua supervisão. [16] O Mensageiro de Allah aprovou e autenticou o resultado final – o mushaf – verificando inclusive a ordem e a posição de cada versículo num dado capítulo ou surata, conforme as instruções de Deus. De acordo com as tradições, quando o arcanjo Gabriel revelava um determinado versículo ou ayah ao Profeta Muhammad – que Deus o abençoe e a sua família – ele também costumava indicar a sua posição na surata, bem como a surata a que ele pertencia. [17]
Relatos indicam que durante a vida do Rasulullah (Mensageiro de Deus), depois de o Alcorão já ter sido compilado como um mushaf, o povo costumava ir à mesquita do Profeta – onde o Alcorão compilado, o mushaf, era colocado no púlpito – a fim de fazer cópias da Sagrada Escritura. [18]
Às vezes é dito, erroneamente, que o Alcorão Sagrado foi pela primeira vez compilado durante o reino do terceiro califa Uthman ibn Affan cerca de 20 anos após a morte do Profeta Muhammad, que Deus o abençoe e a sua família. A causa desse equívoco se deve a uma presunção incorreta do significado da palavra árabe jam, que significa coletar, mas é interpretada como significando compilar. Contudo, o que, de fato, foi feito na época foi a coleta dos documentos incompletos que continham versículos ou capítulos do Sagrado Alcorão para completá-los como cópias do Alcorão já compilado. O fato é que qualquer compilação que tenha ocorrido durante aquela época foi tão-somente uma reprodução da cópia autêntica do Alcorão conforme a versão compilada pelo Imam Ali durante a vida do Profeta e sob sua supervisão.
A Ahl al-Bayt
Outra tarefa fundamental que o Profeta teria que cumprir durante a sua vida foi tratar da questão da sua sucessão. Sob instruções de Deus, Imponente e Majestoso, o Mensageiro de Allah nomeou os sucessores que deveriam liderar a comunidade muçulmana depois dele de acordo com os seus ensinamentos e os do Alcorão Sagrado. O Profeta Muhammad utilizou inúmeras ocasiões para instruir as pessoas a seguir e a aderir a esses doze Califas ou Imams nomeados por ele, com o primeiro dos quais sendo o Imam Ali filho de Abu Talib e o décimo segundo sendo o Imam Mahdi, que está oculto da visão das pessoas [19] até chegar o momento em que Allah o fará reaparecer para libertar as nações desse mundo da tirania e da opressão e conduzi-las para a felicidade e prosperidade. (O Profeta Muhammad, sua filha Fátima, seu primo e genro Imam Ali e os onze Imams infalíveis descendentes de Ali e Fátima formam a Ahl al-Bayt, como mencionado no Alcorão Sagrado 33: 33).
No ano de 630 d.C. setenta dias antes de sua morte e um pouco depois de realizar a peregrinação (Hajj) de despedida, sob instruções de Allah, num lugar conhecido como Ghadir Khum, o Profeta nomeou Ali como seu sucessor e instruiu os muçulmanos que estavam presentes a prestar juramento de fidelidade a ele como o Comandante dos Crentes e líder deles depois do Profeta. A revelação de Allah nesse dia, concernente a essa questão particular, foi:
“Ó Mensageiro! Proclama o que tem sido revelado a ti por Teu Senhor e se Tu não o fizeres, não terá transmitido Sua Mensagem; e Allah te protegerá das pessoas. Certamente, Allah não ilumina os incrédulos.” [20]
Depois da revelação acima, o Mensageiro de Allah declarou:
“Aquele para quem eu sou o mestre, Ali também é seu mestre e líder. Ó Senhor nosso! Ajude aquele que ajuda Ali e Se opõe àquele que se oponha a Ali.” [21]
“Ali é meu califa e sucessor sobre vós depois de mim.” [22]
Os historiadores dizem que o número daqueles presentes em Ghadir Khum que prestaram juramento de fidelidade ao Imam Ali como Comandante dos Crentes e sucessor do Profeta Muhammad, totalizava mais de 120.000 homens e mulheres.
Para confirmar e concluir esse momentoso evento, Allah então revelou:
“Hoje Eu aperfeiçoei a vossa religião, completei Meu favor sobre vós e sancionei o Islam como uma religião para vós.” [23]
De acordo com várias tradições proféticas, o Alcorão e a Ahl al-Bayt são considerados componentes complementares e inseparáveis da mensagem divina. Perto do fim da sua vida, o Mensageiro de Allah dizia frequentemente:
“Eu deixo convosco duas coisas momentosas, o livro de Allah e a minha família, os membros da minha Ahl al-Bayt. Enquanto vocês aderirem às mesmas, jamais extraviar-se-ão depois de mim.” [25]
Todavia, após a morte do Profeta Muhammad, as pessoas não honraram o juramento de fidelidade que haviam prestado na época do Profeta ao sucessor que ele, sob instruções de Allah, nomeou.
Depois de várias tentativas de assassinato, por todos os meios possíveis, contra a sua vida, os criminosos finalmente conseguiram assassinar o Profeta Muhammad, desta vez por envenenamento. O último Mensageiro de Allah para a humanidade morreu no dia 28 do mês lunar de Safar, no décimo primeiro ano da Hégira ou 630 d.C.
O Profeta Muhammad fez surgir uma nação e civilização que num período relativamente curto de tempo alcançou a mais alta posição dentre as nações. Os muçulmanos atingiram tais conquistas até o momento em que eles aderiram aos ensinamentos do Profeta Muhammad. Atualmente, apesar de os muçulmanos formarem um grupo bastante numeroso, eles já não ocupam mais a posição eminente de outrora dentre as nações, uma vez que eles não aderiram as “duas coisas momentosas” que o Profeta Muhammad deixou para eles. A nação muçulmana ainda pode ser uma candidata a liderar a humanidade à prosperidade e à felicidade se eles se certificarem de aderir aos ensinamentos do Profeta Muhammad e dos seus sucessores.
[1] A ocasião da Hégira – que literalmente significa migração e por extensão se refere à migração feita pelo Profeta Muhammad de Meca para Medina para frustrar aqueles indivíduos do Coraich que haviam conspirado para assassiná-lo – marca o início do calendário islâmico. A Hégira ocorreu em 622 d.C.
[2] A Caaba é uma estrutura cúbica que simboliza a Casa de Allah. Ela foi construída pelo Profeta Adão sob instruções de Deus, Imponente e Majestoso, num vale desabitado, que por suas vez resultou na formação da cidade sagrada de Meca ao seu redor.
[3] O Coraich era um conjunto de clãs e tribos que possuíam ligações de parentesco.
[4] Alcorão Sagrado, O Coágulo (96): 1-5.
[5] Alcorão Sagrado, Os Poetas (26): 214.
[6] Alcorão Sagrado, José (12): 91.
[7] Alcorão Sagrado, José (12): 92.
[8] Alcorão Sagrado, A Tribo de Israel (17): 81.
[9] Alcorão Sagrado, Shiba (34): 49.
[10] al-Kafi, por al-Kulayni, vol. 5, p. 275.
[11] Wasa’il al-Shia, por Muhammad Hassan al-Hurr al-Amali, vol. 26, p. 251.
[12] al-Kafi, por al-Kulayni, vol. 7, p. 167.
[13] al-Kafi, por al-Kulayni, vol. 1, p. 407.
[14] Bihar al-Anwar, por al-Majlisi, vol. 22, p. 486.
[15] Alcorão Sagrado, O Socorro (110).
[16] Bihar al-Anwar, por al-Majlisi, vol. 89, p. 48, Beirute. Ver também: “O Alcorão: Quando ele foi compilado?” pelo autor.
[17] ibid.
[18] ibid.
[19] O Imam Mahdi vive entre as pessoas, mas sem ser reconhecidas por elas.Contudo, quando necessário, ele se faz reconhecer àqueles que são sinceramente pios e devotos.
[20] Alcorão Sagrado, A Mesa Servida (5): 67.
[21] Mustadrak al-Sahihayn, vol. 3, pp. 118, 126, 613; Dar al-Kutub al Ilmiyah, Beirute; Musnad Ahmad, vol. 1, pp. 84, 88, 118, 152, vol. 4, pp. 378, 370, ed. Fundação Córdoba, Cairo; Musnad Abi Yala, vol. 1, p. 249, ed. Dar al-Ma’mun lil-Turath, Damasco; Fa’dail al-Sahabah, por Imam Ahmad ibn Hanbal, vol. 2, pp. 572, 585, 586, 613, 682, 705, ed. Fundação al-Risalah, Beirute; Fa’dail al-Sahabah, por al-Nasa’ii, vol. 1, p. 15, Dar al-Kutub al-Ilmiyyah, Beirute; Tafsir de Ibn Kuthair, vol. 2, p. 15, ed. Dar al-Fikr, Beirute; al-Sunan al-Kubra, por al-Nasa’ii, vol. 5, pp. 45, 130-136, 154, Dar al-Kutub al-Ilmiyyah, Beirute; al-Kafi, por al-Kulaini, vol. 1, p. 286, etc.
[22] Bihar al-Anwar, por al-Majlisi, vol. 5, p. 69; Tuhaf al-Uqul, p. 458.
[23] Alcorão Sagrado, A Mesa Servida (5): 3.
[24] al-Mustadrak ala al-Sahihain, por al-Hakim al-Naysaburi, vol. 3, pp. 137-138, ed. Al-Kutub al-Ilmiyyah, Beirute; Majma al-Zawaid, por Nur-id-Din Ali ibn Abu Bakr al-Haithami, vol. 9, p. 114, ed. Dar al-Bayan lil-Turath, Cairo; Tarikh Baghdada, por Abu Bakr Ahmad al-Khatib al-Baghdadi, vol. 2, p. 337, ed. Dar al-Kutub al-Ilmiyyah, Beirute; também vol, 4, p. 348; vol. 7, p. 172 e vol. 11, p. 49-50.
[25] Sahih al-Tirmizi, vol. 5, p. 328, hadith 3874 e 3876, ed. Dar al-Fikr, Beirute e vol. 13, pp. 199-200, ed. Maktabat al-Sawi, Egito e vol. 2, p. 308, ed. Bulaq, Egito; Musnad Ahmad, vol. 3, pp. 17, 26, 59, vol. 4, pp. 366, 371 e vol. 5, p. 181, ed. Al-Maimaniyyah, Egito; Sahih Muslim, Livros dos Méritos, Méritos de Ali ibn Abu Talib, vol. 2, p. 362, ed. Isa al-Halabi, vol. 7, p. 122, ed. Sabih e vol. 15, p. 170 com comentário de al-Nuwami, Egito; Durar al-Simtayn, por al-Zarandi al-Hanafi, p. 231, ed. Al-Qaza al-Najaf; Yanabi al-Mawaddah, por al-Qunduzi al-Hanafi, pp. 29-31, 36, 28, 41, 183, 191, 296, 370, ed. Instanbul; Tafsir de Ibn Kuthayr, vol. 4, p. 113, ed. Dar Ihiya al-Kutub al-Arabiyah, Egito; Jami al-Usul, por Ibn Athir, vol. 1, p. 187, hadith 65-66, ed. Egito; Mujam al-Kabir, por al-Tabarani, p. 137.